Nós versus eles

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É sinal de grande deficiência intelectual ler um texto apenas para concordar com ele ou para refutá-lo. Você tem de ler um texto primeiro para entender o que o autor quis dizer, o raciocínio que ele quer transmitir. Depois, só depois tomar partido, se e somente se houver partido para se tomar. Frequentemente não há. 

Quem vê toda atividade intelectual como um gigantesco nós contra eles deveria se dedicar à briga de gangues ou a alguma guerra civil.

Na verdade, quem faz isso, dividindo o mundo entre preto e branco, entre autores proibidos e católicos, no fundo é vítima de nossa educação de intensa ideologização, e acaba levando isso para seus estudos de religião e filosofia. Hoje em dia, o jovem é deseducado a tentar ver "intenções" em todos os trabalhos, tudo é uma gigantesca conspiração de interesses em que 2+2 depende da intenção secreta do autor. Você até consegue se livrar da associação entre bondade e esquerda, mas essa miopia intelectual de dividir o mundo entre nós versus eles, você ainda a trás consigo.

Nosso Senhor foi bem realista ao dizer que no campo do nós, o trigo, havia eles, o joio, misturado. E pediu que não arrancassem o joio, para não levar o trigo embora por engano. São Paulo também recomendou aos tessalonicenses que examinassem tudo e ficassem com o que é bom. Nem toda comida oferecida a gente come. As vezes, ao ler algum autor, você naturalmente percebe coisas boas e ruins no que ele diz. Mesmo na sua alma, você vê boas aspirações (as virtudes) e más inclinações (os vícios), ficando com as virtudes.

Ou seja, supor que o homem é tão tolo que não saiba separar o que há de bom do que há de ruim é supor que não saberíamos separar as inclinações da virtude e dos vícios em nossa própria alma. E pior ainda, podemos deixar de ler algum autor, mas não podemos fugir de nós.


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