Das razões da Santa Cruz

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Os santos doutores e padres da Igreja sempre entenderam que Jesus foi especificamente crucificado para atender a alguns pré-requisitos do plano da salvação. Não seria equivalente Jesus ter morrido esfaqueado, ou enforcado, ou decapitado, ou fuzilado, ou afogado ou apedrejado.

A cruz atende a uma importância teológica especial porque a Pentateuco declarava amaldiçoado quem fosse pendurado, seja enforcado ou crucificado. Ou seja, seria necessário que Jesus fosse motivo de maldição por conta dos pecados, e ele, que não tinha pecado, ao ser maldito como pecador anulava a dívida do pecado com sua morte. Aliás, isso é bem antigo em tempos apostólicos, o próprio São Paulo ensinou isto. Também o salmo 21 como profecia falava "transpassaram minhas mãos e os meus pés". Outra analogia é o sangue do cordeiro pascal na saída do Egito que foram aspergido na madeira dos umbrais da porta dos hebreus. O anjo vingador de Deus passava matando os primogênitos, ao ver aquele sangue do cordeiro sobre a madeira das portas, poupava aos hebreus. Da mesma maneira o sangue de Cristo aspergido na madeira da cruz na Páscoa afastou a vingança do pecado da humanidade. 

A crucificação foi popularizada entre os romanos pelos cartagineses. Originalmente não era apenas para os bandidos, os cartagineses crucificaram vários dos seus generais derrotados na Primeira Guerra Púnica. É verdade que para um romano a cruz era apenas uma crueldade e uma infâmia. Vejam o conto "A Matrona de Éfeso" do Satiricon para ver como eles reagiam de maneira muito "civil" à crucificação. Quando da rebelião terrível de Spartacus, todos os escravos foram crucificados na Via Ápia, espetáculo grotesco e especialmente eloquente, nunca mais houve revoltas de escravos nos quatro séculos seguintes. Porém para um judeu a cruz além de infâmia era maldição, por conta da maldição do Pentateuco. Quando os sacerdotes pediam a crucificação não era apenas por serem cruéis. Era porque para um judeu isto referendaria a heterodoxia do ensinamento de Jesus, feito maldito pela morte de cruz. O próprio Pilatos, pensando como romano, hesitou em condenar Jesus à crucificação porque a via como excessiva para o que Jesus supostamente fizera, para Pilatos uma boa sova de chicotes escorpiões estava boa.

Os santos padres também entendiam que a cruz possuia uma analogia com a Árvore do Bem e do Mal. Do fruto da madeira daquela árvore veio o pecado, pelo fruto pendente da árvore da cruz veio a salvação. Tanto é que o velho cântico Crux fidelis da igreja chama a cruz de "Doce lenho, doces pregos, doce fruto sustentado" (dulce lignum dulces clavos dulce pondus sustinet). Também os santos padres apontaram que a cruz, pelo seu formato, é verdadeiramente como a união da Terra ao Céu, e seus braços são a divisão da História em Antes e Depois. Também observaram que o santo pastor Davi, ao matar Golias, pegou cinco pedras no rio. Ora, estas cinco pedras que mataram o mal do gigante eram as cinco chagas feitas pela cruz (a quinta é a lança do centurião Longinius, todo crucificado era furado para checar se já morrera). A cruz também tem a característica de não quebrar os ossos da vítima, como deveria ser com o cordeiro pascal, cujos ossos não deveriam ser quebrados.

Ou seja, a crucificação não era apenas mais uma morte possível para o Salvador, mas uma morte totalmente carregada de razões e referencias proféticas.



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2 comentários:

  1. Excelente. Muito obrigado pelo texto.

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  2. Me atrevo a uma conclusão: "uma cruz com uma foice e um martelo, jamais será uma cruz, mas sim, uma blasfêmia; um Santo Padre jamais deveria recebê-la e nem sequer tocá-la".

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