Por uma Igreja menos frágil (Política Eclesiástica para Conservadores XII)

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Política Eclesiástica para Conservadores


Livro III
"O que fazer"


Capítulo XII
"Por uma Igreja menos frágil"



Vista da janela do Castelo papal de Avignon


Frágil, na física, é aquilo que não resiste à energia dos impactos. Ou seja, o frágil está quieto no seu canto e com uma pancada ele se rompe. Algo pode ser duro, mas ser frágil, como o vidro. O vidro é duro fisicamente, poucas coisas podem arranhar o vidro, mas é frágil: a pedra que não arranha o vidro o estilhaça se lançada contra ele. Em contrapartida, algo “tenaz” ou “robusto” aguenta os impactos, mesmo que seja mole. Um exemplo é o policarbonato, usado como para-choque de carros: Você o arranha fácil, mas para rompê-lo apenas uma grande energia, como, por exemplo, uma forte batida de carro. 

O filósofo Nicholas Taleb propõe uma terceira definição fora da física, o “antifrágil” como algo que se beneficia dos impactos e variações. Na física não existe composto assim, mas em sistemas mais complexos orgânicos existe em certos níveis. Ainda que neste capítulo sejamos tributários das idéias de Taleb, não iremos nos aprofundar. Fica aqui a referência para quem desejar se aprofundar neste excelente conceito da antifragilidade. 

É curioso notar que a Igreja católica sempre foi uma organização antifrágil, ela se beneficiou e se re-energizou em todas as tentativas de destruí-la pelo impacto, como as perseguições da época romana, as heresias da natureza de Cristo, as invasões muçulmanas, a reforma protestante. O que a Igreja não tem resistido é com a lenta corrosão interna e externa que vivemos nos últimos tempos. 

Há nos últimos tempos, contudo, uma perigosa fragilidade surgindo na Igreja a partir de algo bom. Como todo mal, aliás, todo mal é uma mutação de sentido de algo bom.

O núcleo da Igreja é a diocese. O termo diocese era uma pequena estrutura administrativa de uma cidade criada pelas reformas administrativas de Diocleciano e depois Constantino no Império Romano. Grosso modo, diocese era o equivalente romano de município (mas sem a independência federada como é no Brasil moderno). Por analogia, as dioceses também se tornaram sinônimo da delimitação da região territorial da cidade sob a responsabilidade do bispo. Faço aqui uma observação importante, bispos sempre houve, ainda que o termo diocese tenha surgido emprestado. São Pedro foi em certo período bispo de Antioquia da Síria, o termo “bispo da Diocese de Antioquia da Síria” soaria a um romano como “bispo do Município de Antioquia da Síria” ou “bispo da Grande Antioquia da Síria” ou ainda “bispo da Região Metropolitana de Antioquia da Síria”. Hoje em dia diocese é eminentemente religioso e município eminentemente político, e por mais que falemos no “bispo de tal cidade” ele não o é: O município de São Paulo é dividido em várias dioceses, assim como suas vizinhas, as diocese de Santos e Campinas, são divididas em vários municípios. Há ainda a figura das “Arqui”dioceses mas por hora, adiante:

Sendo a diocese o núcleo “celular” da Igreja local (não gosto do termo “Igreja particular”, mas ele existe), a Igreja é composta destas dioceses independentes, unidas pelo mundo todo pela doutrina. Dai a importância tremenda para o católico da “ortodoxia” (mesmo ensinamento). É a ortodoxia que mantém as dioceses unidas.

O que disse acima é comum às Igrejas católicas, e até bem oriental. Porém a Igreja católica ocidental e romana tem algo a mais, ela tem a figura da Santa Sé. As dioceses são iguais, os bispos são iguais, porém Jesus colocou São Pedro, futuro bispo de Roma, como primeiro, ainda que entre os iguais. Isso foi algo verdadeiramente brilhante e divino. A cátedra papal era o “Superior Tribunal” em que a ortodoxia poderia ser julgada e suas dúvidas dirimidas. Ao mesmo tempo de maneira divina Jesus garantiu a Pedro e seus sucessores o que mais tarde se chamaria de “Infalibilidade papal”, ou seja, a suprema autoridade do pontífice romano em matéria de fé e moral. O termo infalibilidade soa ruim a nossos ouvidos acostumados a uma falsa igualdade, mas está cheio de infalibilidade por ai: O juiz de um partida de futebol é ainda “infalível” em sua partida, o Supremo Tribunal Federal é “infalível” para resolver controvérsias constitucionais. Infalibilidade significa, bem prosaicamente, que tal cargo é a instância final, é quem decide as controvérsias no colegiado, e sua decisão deve ser acatada. Um bispo que não acate uma decisão papal em matéria de fé é passado por cima tanto quanto um juiz que não acate uma súmula vinculante do STF. E isso é bom, imagine uma controvérsia que se arrastasse o tempo todo. Mesmo no Antigo Testamento era o profeta Moisés quem resolvia as pendências finais entre o povo, e foi ao rei Salomão que as mulheres levaram a disputa de quem era a mãe do filho sobrevivente.

Mesmo na Igreja oriental, que rompeu com a Igreja romana por não se adequar ao sistema papal, há uma certa infalibilidade na figura dos bispos metropolitas: por mais que eles se digam “colegiado”, tanto faz haver um colegiado como uma pessoa como a autoridade final infalível. O poder executivo é monocrático na pessoa do Presidente da República como seu chefe, o poder judiciário é colegiado tendo o STF como órgão colegiado (porém mesmo órgãos colegiados não escapam de ter um “presidente” com maior autoridade: por mais que a cabeça da Justiça seja o STF, o presidente do STF é o chefe do poder judiciário). Faço estes paralelos com o poder temporal porque parece haver na organização humana algo de Lei Natural na criação destas estruturas hierárquicas que atende a uma sabedoria antiga, quiçá divina. E propositalmente cito o STF, porque assim como os bispos seus juízes não são eleitos, mas designados. Caso citasse o Congresso quebraria o paralelismo com a Igreja já que o Congresso é eleito pelo poder popular, e a autoridade da Igreja não provém do povo – graças a Deus, porque o povo é infiel, vide toda a Bíblia e a História Sagrada para exemplos – assim como o judiciário: um juiz deve julgar dando de ombros para a volátil vontade popular se for necessário para seguir a lei. 

A estrutura da federação de dioceses sempre foi interessante por ser extremamente resistente à heresia e ao cisma. Mesmo que a heresia infectasse o oriente, como no caso do Arianismo, a metástase não se espalhava para o ocidente, que permanecia. Mesmo que uma ala de dioceses da Igreja entrasse em cisma, rompendo com Pedro, outra ala permanecia com ele. E as dioceses fiéis também mandavam seus glóbulos brancos de ortodoxia contra as infecções heréticas. Se a Provença e os Pirineus se infeccionavam no catarismo, os membros saudáveis da Itália, Espanha e Portugal mandavam seus Domingos de Gusmão e Antônio de Lisboa para trazerem de volta à sã doutrina. 

A estrutura diocesana sempre foi muito resistente. Quando analisamos o Grande Cisma veremos que seu dano foi porque a estrutura da diocese foi atravessada supervenientemente pela estrutura do Reino: Assim o reino da França ficou com os papas de Avignon, o Reino de Portugal com os papas de Roma. Eu garanto que se não houvesse a identidade nacional já surgindo naquela época é provável que os bispos das dioceses do norte da França não seguissem Avignon, e vice-versa. (Observem que eu didaticamente estou resistindo a chamar os papas de Avignon de anti-papas. Esta polêmica de validade dos conclaves romanos e franceses nunca foi resolvida mesmo, mas são águas passadas depois do fim do cisma. É interessante mas não é nosso tema). 

A estrutura diocese foi tão resistente que vemos dois bispos de Londres martirizados por dois reis da Inglaterra: São Thomas Beckett e São John Fischer. O curioso é que Beckett foi morto em plena comunhão e paz com Roma, enquanto Fischer foi quando da resistência contra a depravada e pecaminosa reforma anglicana. Porque a estrutura de independência eclesiástica diocesana resiste mesmo a uma unificação do Estado Medieval/Moderno na figura do rei. Aliás, já em período não muito antigo, o imperador do Brasil se desgastou por tentar intervir nas escolhas diocesanas. 

A estrutura da diocese é resistente, mas não é dinâmica. Ela resiste bem passivamente, mas não age. Vejam por exemplo a Igreja católica oriental, vocês vêem eles tomando alguma posição em algo moderno, atual e polêmico? Não. Daí a importância da Santa Sé.

A Santa Sé age. A Santa Sé é a cabeça da Igreja de maneira ativa; a Santa Sé é consultada e responde, a Santa Sé preside ao colegiado dos bispos em questões administrativas; a Santa Sé tem órgãos para a administração a Igreja. E a Santa Sé tem seu “senado” que é o colégio dos cardeais, tem seus “ministérios” que são as Congregações, e tem sua independência que é o Estado do Vaticano. Um bispo da Espanha ainda é súdito do rei da Espanha, um bispo do Brasil ainda é cidadão da República Federativa do Brasil, a Santa Sé é livre, leve e solta em seu Estado, o que permite inclusive que a Igreja católica fale de igual para igual com outros estados nas Nações Unidas. Um bispo do Brasil é submetido às leis do Brasil, um prelado na Santa Sé está apenas sob as leis da Igreja. No passado inclusive a Santa Sé fazia guerra a outros estados (o que não era muito conveniente em termos “pastorais”, mas era necessário ora pela independência da mesma Santa Sé, ora atendendo aos interesses do papa reinante). Como podemos nos esquecer de Júlio II atacando o rei da França na Itália? Como podemos nos esquecer dos papas de Avignon montado exércitos para livrarem os Estados Pontifícios dos milaneses ou mesmo da usurpação de Cola de Rienzi? (“Podemos nos esquecer” é pura retórica. Não dá para esquecer do que 99,99% das pessoas não conhecem, eheheheh...).

O poder da Santa Sé é o poder do papa. Este poder atingiu dois picos históricos diferentes: o poder temporal, com o papa efetivamente intervindo nos assuntos dos reinos, foi atingido no final do século XII com Inocêncio III e declinou mesmo em vida deste. Desde lá os reinos católicos da terra até louvavam o papa com suas bocas, mas humilhavam-no, desobedeciam-no prendiam-no e até guerreavam contra o Estado Pontifício. Mas tudo bem, a Igreja é a Igreja mesmo, na Idade Média ela até fazia as vezes de Nações Unidas, mas é uma função acessória, não essencial. 

O segundo pico de poder da Santa Sé é o poder administrativo na Igreja e consequentemente espiritual nos fiéis. Podem discordar de mim, mas este tempo é hoje. Nunca antes, devido à tecnologia, os fiéis puderam estar tão próximos de qualquer ato ou palavra do pontífice, nunca antes a Santa Sé teve poder de intervir tanto e tão certeiro em qualquer diocese do mundo inteiro. Diversos fatores levaram a isto, uma delas é a tecnologia: com um telefonema, email ou twitter Roma pode estar conectada a qualquer parte do mundo e dar ordens. Também a Santos Dumont atribuamos sua responsabilidade, com oito a dezesseis horas de airbus 330-200 fretado na Alitalia o papa pode ir a qualquer parte do mundo, tocar e ser tocado pelos fiéis.

Outro fato foi que assim que a Igreja perdeu poder temporal ela pôde se concentrar no poder espiritual. O grande Pio IX e o Sylabus que me perdoem, mas os velhos e enormes Estados Pontifícios eram um dreno de dinheiro desde o século VI. A Santa Sé na francesa Avignon vivia quebrada para manter a guarda dos estados italianos, e mesmo com o papa em Roma houve guerras e mais guerras na Itália, sem contar o furioso dreno de energia que era manter a administração civil daqueles territórios. O Estado do Vaticano, parafraseando Pio XI, tem o tamanho ideal para sermos livres sem gastar muito. O Vaticano é grande o suficiente para todas as vantagens dos velhos Estados Pontifícios sem as suas desvantagens. Aliás, o Vaticano em si não custa nada à Igreja, já que a venda das entradas do Museu do Vaticano pagam superavitariamente as despesas. Quem diria que séculos de mecenato papal nas artes (tão furiosamente combatidos pela hipocrisia cavalar de Calvino) gerariam um ativo gerador de caixa para se manter, hein?  Uma advertência: O Estado do Vaticano é superavitário, a Santa Sé não, a Santa Sé gasta e gasta muito, portanto precisamos do óbolo de Pedro. Se o leitor não entendeu, explico: Se a Santa Sé se mudasse para Cabrobó de Pernambuco, ainda deveria custar, mas o Estado do Vaticano ainda se manteria com as receitas do museu.

Como outro efeito, os países cristãos são totalmente laicos, a Igreja é totalmente separada do estado. E por ser separada do estado não sofre intervenção deste em seus assuntos, como acontecia no passado com os reis católicos. Dom Pedro II, de saudosa memória, até podia ter confusão com o papa sobre bispos a serem nomeados, hoje em dia a Igreja canta e anda com a opinião do presidente da república sobre quem será bispo de que lugar.

Portanto em menos de vinte e quatro horas qualquer decisão da Santa Sé seria conhecida urbi et orbi, conhecida e implementada no mundo todo. Tivemos um exemplo no século passado, a velocidade em que a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II varreu o missal antigo foi sem precedentes. Na verdade, uma informação se divulgava rapidamente até mesmo no Império Romano, uma carta ainda levaria duas semanas para cruzar da Espanha à Armênia como hoje em dia uma carta simples pelo correio. A questão é que agora a Santa Sé tem como verificar a aplicabilidade de suas normas e até mesmo fazer sanções administrativas. Se a Santa Sé aplicar algo ela pode também em tempo recorde verificar se efetivamente foi seguida. Em resumo, hoje em dia a cátedra de Pedro tem um controle em poder hierárquico como nunca antes na História da Igreja. Veja quanto tempo e quanto sangue levou-se para extinguir com o Jesuítas. Hoje em dia seria muito mais rápido, e mesmo nos confins do Paraguai receber-se-ia a ordem com a mesma presteza que seria em Agnani, e o papa pode expulsar ao bispo de Ciudad del Este com o mesmo processo e tempo que expulsaria o bispo de Óstia, ali do lado de Roma (logicamente por ser o bispo de Óstia o cardeal-decano haveria uma implicação politica, mas fiz a analogia no sentido geográfico).

Porém não é motivo para celebrar, e sim para se preocupar. Nunca antes a Igreja esteve tão frágil e tão vulnerável a uma tomada da Santa Sé por interesses temporais e revolucionários. Um papa maligno e nefasto que se dedicasse (é uma ironia estar escrevendo este verbo no imperfeito do condicional e não no presente do indicativo) a destruir a Igreja por dentro, a aliviar sua doutrina, a mudar seus ensinamentos seria altamente sucedido e seguido pelos fiéis. E ainda haveria quem nos atacasse por não obedecer ao papa.

Nunca estivemos tão frágeis. E o sucesso da Santa Sé pode efetivamente ser nosso mal. Não que a Santa Sé seja mal, pelo contrário, é boníssima. Mas o que estávamos dizendo no capítulo anterior sobre a captura de instituições boas pelo mal???

Quem não conhecer a História da Igreja pode estar me chamando de herege, eu retruco que quem pensa assim é ignorante de História e doutrina. É inegável que papas como Clemente V e Leão X transformaram o papado em joguete dos interesses temporais.  E isso em 1305 e 1515!!! Imaginem hoje em dia com toda engenharia social, com todo bem nutrido o socialismo fabiano, com todo eurasianismo... Meu Deus! Seria esta consequência a profecia atribuída a Nossa Senhora de la Salette que “Roma perderia a fé”? É verdade que Clemente e Leão, enquanto maus administradores da vinha do Senhor, não alteraram a doutrina, mas e se um homem autenticamente hipócrita e maligno fosse eleito? Ou pior, um bem intencionado burro? A Igreja também já sofreu com papas bem-intencionados, mas burríssimos nos assuntos de política, como São Celestino V. 

Acredito que no caso dos tristes prognósticos acima Deus interviria. Ah, sim, ele interviria. Tenho certeza que no dia em que um papa acordar determinado a mudar o patrimônio da fé o Senhor vai dizer “O que é isto que ouço falar de ti? Presta contas de tua administração” (Lc 16,2). A diferença é que Deus não daria aviso-prévio, o papa estaria morto. Deus tolerou bem papas rapaces, tirânicos e até homicidas, papas hereges não há de tolerar. Mas quem sabe o que nos reserva o tempo do fim?


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