D. Hélder Câmara, uma hagiografia sem hágios

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Por Anderson Macena - D. Hélder Pessoa Câmara: Mais uma divisão clara se forma no Brasil, os contrários e apoiadores a canonização de D. Hélder Câmara, o Bispo Vermelho para alguns e Dom da paz para outros, mas, a pergunta que não quer calar, quem foi D. Hélder?

Hélder Pessoa Câmara, nascido a 07 de fevereiro de 1909 em Fortaleza, filho de uma família de classe média (hoje diríamos, da elite burguesa branca de olhos azuis cearense). Ingressou no Seminário da Prainha (o mesmo que formou Pe. Cícero Romão), no ano de 1931 sob a oração consecratória de D. Manoel da Silva Gomes, então Metropolita de Fortaleza foi ordenado Presbítero da Santa Igreja de Deus, no início de seu Ministério Sacerdotal Pe. Hélder foi designado por seu Bispo para ser Assistente da Ação Integralista Brasileira sob o lema de “Deus, Pátria e Liberdade” foi convidado a se mudar para o Rio de Janeiro, sendo recebido no Estado da Guanabara pelo eminente Cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra, sentindo-se não representado pelos ideiais do integralismo brasileiro abandona o integralismo. No Rio, exerce seu ministério presbiteral, inicia uma ponte aérea (rara na época entre o Rio e Roma), onde conhece o progressista Bispo Montini, Hélder convida Montini a vir ao Brasil, amizade essa que é estreitada ao longo dos tempos, na década de 40, Hélder leva a Montini a idéia de se inspirar nos Bispos Franceses e assim criar também no Brasil uma Associação de Bispos Brasileiros, ligados a colegialidade do Colégio dos Bispos e, por conseguinte do Papa. Montini leva a ideia ao Secretário de Estado e este se encarrega de apresentar o pedido ao Papa. O Papa vê nessa movimentação uma clara autopromoção de Pe. Hélder ao episcopado, Montini contata Hélder e conversam longamente por horas sobre o esboço inicial da CNBB, fica acertado que será criado a CNBB, mas, que Hélder não seria o Presidente, foi um baque na “carreira” do Padre cearense. Montini leva ao Pontífice o esboço da conferência brasileira e pede a benevolência ao Papa sobre uma promoção ao Pe. Hélder,  assim, Pio XII nomeia Hélder como Bispo titular de Saldae e auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, Arquidiocese esta, tendo a frente Jaime Barros Câmara, os problemas do Cardeal estavam só começando...

D. Hélder inicia seu ministério episcopal fundando o banco da providência, destinado a emprestar dinheiro a juros baixos a comerciantes das “favelas” do Rio, em contrapartida o Epíscopo era muito bem recebido entre as claques da high society carioca, tinha influência com militares, políticos de expressão nacional e as damas cariocas, sempre regados aos melhores doces da Confeitaria Colombo.  D. Hélder é designado em outubro como Secretário geral da CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e também como coordenador do Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro 1955. Com a presença de milhares de pessoas, Bispos, cardeais, padres de todo o mundo, todos sobre a batuta do Bispo Auxiliar, Hélder Câmara. O Legado Pontíficio de Pio XII  Cardeal D.Bento Aloisi Masella rasgou elogios ao epíscopo, Café Filho aplaudia de pé e rasgava louvores, enchendo assim o ego de Sua excelência Hélder, o Cardeal Jaime Barros sentiu-se incomodado indo a Roma pedir a transferência de Hélder. Pio XII morre. Quem será o sucessor?

Uma surpresa! Roncalli é eleito como sucessor de Pio XII, Montini comemora, Hélder também, agora tudo ficará bem, pensa. João XXIII convoca um Concílio Ecumênico. Logo chega a Conferência episcopal brasileira os convites de quem participará das sessões, assim viajam vários Bispos brasileiros, entre eles, Hélder e Castro Mayer, um vai para as fileiras de Suenens e Montini, o outro de Otavianni e Lefebvre. Após a morte de João XXIII e a eleição de Montini, atendendo à solicitação de D. Jaime, Hélder é nomeado Arcebispo de São Luís do Maranhão, morre D. Carlos Gouvea Coelho (Arcebispo de Recife) e Paulo VI o designa para Olinda e Recife, estamos no início do ano de 1964. Hélder toma posse alguns dias após a derrubada do governo comunista de João Goulart pelos militares, Paulo VI inicia as sessões conciliares e Hélder volta a Roma já com o prestígio de ser amigo do Santo Padre. As brigas só intensificam um racha na CNBB, D. Hélder em Roma começa a escrever a seus amigos, dando origem as chamadas Cartas Conciliares a Família Messejanense, enviada a amigos do Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza, onde ele explana o dia a dia dos padres conciliares e as batalhas travadas nas sessões, fala da amizade com o Cardeal Suenens da Bélgica e de D. Manuel Larraín do Chile. Ainda nas sessões conciliares Hélder encabeça um agrupamento de padres conciliares que propõem uma “volta as origens” dando assim origem ao pacto das catacumbas, uma carta subscrita por Bispos onde abdicam as vestes próprias do episcopado, a renúncia aos “privilégios” eclesiásticos e a promessa de uma vida humilde, o pacto foi, a negação do uso das vestes episcopais, tais qual, a Mitra, Báculos de ouro, solidéu, cruz peitoral de metais nobres, etc, a proposta de seguir a Cristo na pobreza.

O “Dom” da Paz de Olinda e Recife

Desempenhando o ofício de Metropolita da Circunscrição eclesiástica de Pernambuco, D. Hélder pouco fez do ofício e quase nunca usava seu Pálio, passando a receber na Arquidiocese, padres de outras dioceses e sobretudo de outros países, a bem da verdade se diga que D. Hélder muito pouco tempo passava no Território Arquidiocesano, tendo em seu Bispo Auxiliar D. Lamartine o verdadeiro Arcebispo de Olinda em Recife, a isso, ele se referiu várias vezes “D. Lamartine, fora, sem sombra de dúvidas, muito mais Arcebispo de Olinda e Recife que eu, o Báculo é muito mais dele que meu”. D. Hélder passava os dias atendendo jornalistas do mundo que vinham a procura de suas palavras sobre a Igreja e sobre o mundo, quase nada fez pelas vocações sacerdotais, quando o fez, foi de forma equívoca e incorreta, acreditem os senhores, que funcionava nesta Arquidiocese dois seminários o SERENE e o ITER, Seminário Regional do Nordeste II e o Instituto Teológico do Recife, respectivamente. O Serene cuidava da formação dos Seminaristas de todo o regional NE II da CNBB (corresponde os estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte) e o ITER a formação dos leigos da Arquidiocese de Olinda e Recife e dioceses sufragâneas, no SERENE foi implantado a experiência do ver, julgar e agir, além dos professores não serem comprometidos com a ortodoxia da Igreja, os seminaristas voltavam para suas casas, numa espécie de seminário ‘EAD’, professores ateus e inclusive pastores anglicanos davam a formação a muitos sacerdotes que ainda hoje exercem ministério sacerdotal na Arquidiocese. D. Hélder também não zelava pela liturgia, certa vez, ocorrera um roubo numa Paróquia de zona nobre do Recife, invadiram a Matriz violaram o Sacrário e espalharam as partículas pelas ruas do Recife, um grupo de senhoras, fora conclamar o Arcebispo para um ato de desagravo, e ouviram dele os seguintes dizeres “todos os dias, Cristo é vilipendiado embaixo dos viadutos e não vejo as senhoras organizarem atos de desagravo, vão ajudar os que têm fome e deixem de bobagem”. Causando revolta numa parte considerável da “elite recifense”. Os padres desempenhavam aqui na Arquidiocese tudo, menos, catolicismo romano à exceção de 5 sacerdotes que resistiram ao período Helderiano, entre eles o saudoso Pe. Guedes que fora nos tempos de seminário, cerimoniário no Concílio Vaticano II, a Arquidiocese ia muito bem socialmente, mas o povo carecia e sofria com a ausência do catolicismo autêntico, com a morte de Paulo VI e após o Papado rápido de João Paulo I, o Espírito Santo constituía Pastor Supremo da Igreja Universal em outubro de 1978 o polaco Karol Wotjyla atribuindo o nome de João Paulo II, João Paulo já conhecia D. Hélder das sessões conciliares e sabia da realidade marxista que se tentava impor à América Latina mostrou preocupação com a guerrilha em Cuba, Guatemala, Nicarágua e El Salvador, e os governos militares do Brasil, argentina e Chile, uma das primeiras coisas que fez foi nomear Arcebispos conservadores nos respectivos países e acompanhar junto ao governo dos EUA  a movimentação na América Latina, evidencie-se a nomeação de Bispos e superiores nos seminários formados em Instituições de ensino superior conservadora, por exemplo, para o Brasil a nomeação de D. Eugênio Sales, D. José Cardoso Sobrinho,  no Chile de Bispos do Opus Dei, na Argentina dos Legionários de Cristo e João Paulo II ele mesmo veio a Conferência LatinoAmericana dar o seu recado no México em Puebla, silenciando Pedro Casaldáliga e Paulo Evaristo Arns. Na década de 80 quando soube que o Papa viria ao Recife D. Hélder tratou o Pontífice com a mesma humildade que tratou todos que o procuravam, o Pontífice ao pisar em solo Pernambucano exclamou “Arcebispo Hélder Câmara, irmão dos pobres, meu irmão” alguns vêem nisso um ato de aprovação, o que João Paulo II fez foi ratificar o que a Igreja sempre ensinou ao longo da História, “Em verdade eu vos digo, que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’ (Mt 25,40), D. Hélder continuava a se ausentar de sua Arquidiocese, o Núncio informa ao Papa todas as desordens ocorridas nesta Arquidiocese, João Paulo pede tempo, quando no ano de 1985 o Arcebispo vermelho pede renúncia, a nomeação do novo Metropolita já estava pronta, foi de pronto recebida pelo Papa e anunciado o sucessor, D. José Cardoso Sobrinho o.C então Bispo de Paracatu MG. Após a posse,  de D. José, D. Hélder continua ativo fora do país em conferências, congressos, encontros em universidades sobretudo na França, Bélgica e Itália, seus padres fizeram de tudo para atrapalhar a vida do Arcebispo José, piquetes, protestos, passeatas, cartas, calúnias, difamações, mas, D. José contava com o apoio irrestrito ao Papa. No  dia 27 de agosto de 1999, D. Hélder dá seu último suspiro, entregando sua alma a terra de onde veio e para onde voltou. 



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2 comentários:

  1. Parabéns frei... continue com esse trabalho, eu quero minha igreja sem comunismo....

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