Dai a Deus o que é de Friedman

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Sim, os grandes papas do passado advertiram sobre os perigos do hipotético exagero do liberalismo econômico transbordando fora da economia nas relações humanas. Mas estas advertências não se comparam às CONDENAÇÕES e EXCOMUNHÕES gravíssimas com que combateram o veneno do marxismo e do comunismo, como doutrina ímpia e inimiga eterna da cruz. Uma coisa é saber que o remédio aspirina em excesso faz mal, outra coisa é o veneno que em pequenas doses já faz cadáveres. O marxismo é o veneno. 


Dizer que a Igreja condena igualmente ambos, liberalismo econômico e marxismo,  é como dizer que uma multa por estacionamento proibido e 30 anos de cadeia por homicídio são penas iguais para atos igualmente criminosos. Est modus in rebus. As coisas tem modulação.


Toda matéria econômica é amoral. Sendo amoral, a moralidade depende das intenções particulares de seus agentes individuais. Por mais que se fale de "pecado social" no sentido do "problema do sistema", como disse o grande João Paulo II, o pecado é um ato individual. O "sistema" não é gente para pecar. 


A Igreja não condena o liberalismo econômico no sentido proibitivo do termo. Adverte quanto aos excessos mas dai afirmar que é "condenação" é como disse acima, igualar multas de transito com cadeia. Maéeria econômica é materia de liberdade individual. O que nao podemos fazer é tomar as incompreensões dos fenômenos economicos de certas epocas na Igreja e vaza-las como regras. Exemplo claro é a incompreensão medieval (e é desta época mesmo) do conceito do "valor do dinheiro no tempo", que é um dos conceitos mais basicos da matemática financeira. Um medieval de fato contestaria que 100 moedas de prata hoje valessem 101 moedas daqui a um mês. Mas certamente não entenderia se eu explicasse hoje em dia o que chamamos de "real", "dólar" ou "euro" são títulos de crédito sem lastro emitidos por um banco central de um governo e que são criados não pela máquina de imprimir papel-moeda, mas pelo fator multiplicador bancário que empresta para várias contas também de crédito o dinheiro que na realidade não existe nem em moeda, nem em papel, nem em ouro, nem em bens... Mas sim como valores de contas de partidas dobradas arquivadas eletronicamente... Que aliás foram inventadas por um monge...


Porém lembro que mesmo naquela época Santo Tomás disse ser justo que aquele que empresta receba uma contrapartida pelas importâncias postas a disposição. Portanto é de uma extrema imprudência bater o martelo e pontificar um "anathema sit" na correção monetária. Hillaire Belloc comenta mais a fundo estas questões, mas ainda assim na época de Hillaire (e Chesterton) a economia não estava tão bem fundamentada quanto hoje.


Lógico que os comunas e adeptos da teologia da libertação dizem que "condena o liberalismo" justamente porque as escolas liberais contestaram o marxismo na economia de maneira muito definitiva.


Penso que uma das razões pela qual muitos católicos torcem o nariz a estas escolas econômicas, além da difamação marxista, é que estas escolas também demonstraram a impraticabilidade do Distributivismo, querido a Leão XIII, Chesterton e Belloc. Muitos católicos tentam tomar os alicerces não-continuados do distributivismo e propô-lo como terceira via entre capitalismo e socialismo. A realidade econômica faz picadinho destas pretensões. 


Porém as incompreensões dos eclesiásticos em matéria econômica são amplas até o dia de hoje. Mesmo o papa Francisco, saindo das sandálias petrinas da infalibilidade em fé e moral, na Evangelium Gaudium pontificou comentários bem superficiais sobre economia. 


Como disse num artigo passado, antigamente o erro dos eclesiásticos foi quererem pontificar sobre astronomia como se fosse doutrina revelada. Esta tentação se dá na economia, onde infelizmente não existem telescópios para demonstrar erros patentes.



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Um comentário:

  1. Bom texto, frei Galvão.
    Discordo apenas de um ponto e vejo buraco que pode ser sanado em outro.

    Discordo que todo sistema é amoral veementemente. A moral de qualquer sistema que deve ser buscado com maximo afinco.
    O detalhe que pose ser sanado no seu texto é sobre distributivismo. É verdade o distributivismo tem alicerces não continuados, mas a teoria econômica liberal não conseguiu destruir as críticas mais importantes que o distributivismo faz. Distributivismo não é terceira via mas uma via moral cristã para a economia.
    Abraço
    Pedro Erik

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