Ah, aquela idade das trevas e terror religioso que era a Antiguidade greco-romana...

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2 Comentários


Infelizmente a grande maioria das pessoas não sabe que a diferença entre a Antiguidade e a Idade Média é que na Idade Média a religião era muito menos omnipresente. Sim. Na Antiguidade, o politeísmo e a religiosidade permeavam absolutamente todos os aspectos da vida humana, você não fazia nada sem ter um deus ou uma cerimônia religiosa para atender. Havia deuses para tudo, até para as cercas das fazendas, os deuses Termos, que garantiam a inviolabilidade da propriedade. Havia os deuses lares para a sua família (que eram seus avós deificados naturalmente pela morte), havia os deuses da sua tribo (grosso modo, seu colégio eleitoral em Roma), havia os deuses do Estado (daí o censo romano, e o banquete dos parasitas - Em grego literal os homens pagos pelo Estado para irem à cerimônia - em Atenas). Se você fosse soldado, a águia da sua Legião era um deus que você respeitava mais que Marte no Olimpo. E se atacasse uma cidade inimiga tinha de adorar o deus dela também, caso contrário ele iria proteger seus inimigos. Se fosse senador, começava a sessão com uma libação à deusa Vitória. Se fosse candidato a algo, os áugures tinham de obter aprovação dos deuses ao seu nome. Como cidadão, deveria adorar o gênio tutelar do Imperador vivo e adorar o Imperador deificado morto. Se caísse um raio na sua casa, era Apolo ou Júpiter mandando um recado e consagrando o lugar, os áugures e os pontífices tinham de descobrir quem. Júpiter Tonante, Júpiter Ferétrio e Júpiter Optimo Máximo era deuses diferentes, em templos diferentes, assim como a Palas de Esparta não era a mesma Palas de Atenas, nem a Juno Moneta era a mesma Juno de Veios. Isso quando os deuses de Roma não mais bastavam, os romanos também faziam templos para Ísis e Osíris mesmo tendo escravizado seu Egito, e para banir uma epidemia o Oráculo de Delfos mandou que adorassem Cibele da Ásia Menor, daí o culto da Magna Mater, mas que por outro lado não era a tão popular deusa síria, Astarte, apesar de quase igual em tudo. Lúcio Cornélio Sulla tinha seu pequeno Apolo de ouro, aquele Apolo protegia ele e ninguém mais. Eram deuses e cerimônias para absolutamente tudo e todos, e os primeiros cristãos tinham que pelo menos internamente fechar os olhos para o primeiro mandamento se quisessem ter uma vida social e política, já que havia cerimônias religiosas para tudo que fossem participar e historicamente é fato que eles participavam, não se escondiam em catacumbas. Tanto que no Concílio de Jerusalém o tema debatido pelo apóstolos eram as carnes dedicadas aos ídolos, até o reles açougueiro tinha que consagrar a carne a um deus. Tudo na Antiguidade era sagrado, tudo tinha seu deus, e como tudo tinha seu deus, os pagãos não tinham devoção quase nenhuma mais.

Mas na Idade Média, que avanço! A separação entre o Estado e religião como arejou as mentes! Sagrado mesmo eram as coisas da Igreja, o resto do mundo era deliciosamente profano. Você podia consertar sua cerca sem temer a vingança do deus Termo, o rei poderia chamar seus ministros sem precisar fazer uma celebração, e em qualquer igreja se rezava para o mesmo Deus e para os mesmos santos. Um homem poderia enfiar o dedo no olho do rei sem temer sacrilégio e a vingança de um nume tutelar, afinal, o rei era um homem como ele, homem poderoso, mas submisso ao mesmo Deus e sob as mesmas leis. Os medievais, de fato, tinham orações diversas e pediam bençãos religiosas para suas atividades, mas nem se compara à necessidade premente que um pagão tinha. Um comerciante medieval que pedia uma benção do bispo para a sua viagem o fazia para ter um bem a mais, não era como um pagão que ao se atirar ao mar tinha que sacrificar ao deus protetor do navio, sem contar Netuno, Oceano, Tétis, Anfitrite, as Nereidas, os Tritões, Aeolo, Bóreas, Zérifo, a multidão de deuses marinhos e aéreos que poderiam se irritar com a omissão. Não é a toa que São Paulo em Atenas encontrou um altar para celebrações "no Atacado" dedicado aos deuses de África e Ásia, e as deuses desconhecidos. Os pagãos tinham de adorar tudo. Grande e arejada Idade Média, em que Deus, sendo omnipotente, estava sossegado em seus ambientes sagrados e deixava o mundo para nós homens cuidarmos velando com paternal solicitude, mil vezes melhor que uma multidão de deuses antigos que dividiam o mundo em seus pequenos feudos e exigiam pedágio de adoração do homem.

Naturalmente, na Antiguidade, tudo sendo sagrado, tudo também tinha significado. Dai vinham os presságios, eventos estranhos e excepcionais em que os deuses mandavam "seus recados". Ora, tudo era sagrado! Dai vem a superstição, que é uma corrupção da religião, que a atribuição mágica à matéria. Na verdade, hoje em dia pensamos como mágica, mas na Antiguidade era natural a associação, tudo era divino. Hoje em dia balançamos os ombros se cai um raio, raios são naturais e caem o tempo todo, raios são profanos e comuns como os peidos e os terremotos. Ah, mas para um antigo, um raio só poderia vir de Júpiter, um terremoto só por Netuno, e deveria até haver o deus dos peidos, que era Momo, que foi expulso do Olimpo por peidar diante de Júpiter. O Cristianismo matou os presságios justamente por levantar a barreira entre o sagrado e o profano. Coisas profanas são coisas profanas, e com isto o Cristianismo trouxe de volta a dimensão do sagrado, que um pagão vivia saturado ao ponto de não mais se importar.


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2 comentários:

  1. Padre, coincidentemente estava falando com minha esposa do cinismo dia Romanos em suas relacoes com os deuses . Como tudo era barganhado. Se voce me der isso , lhe dou aquilo. Com os judeus e por conseguinte os cristaos, para agradar a Deus e necessario uma entrega a sua vontade e cumprir uma lei moral.

    Por isto eh que tempos neo pagaos hoje em dia. Nada de moralidade divina. Faco a minha vontade e se o deus a la carte nao me der Nada...acharei outro jeito , ate magia...

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  2. Os muçulmanos, com sua exteriorista religião e seus compulsórios ritualismos como parte integrante e essencial do culto à deusa da lua Alah, essa estranha fé pagã é, em pleno século XXI, é boa reminiscência de como se comportavam os antigos pagãos, conforme exposto acima e de como os povos eram aferrados às práticas "exigidas" pelos deuses, mais e/ou menos exageradamente, como os muçulmanos; afinal, cada deus ou deusa "tinha" suas preferencias e exigências, como via de execução se suas "vontades", e nesse caso são os Imans e Mullahs do Islã a que são manifestados os desejos dos governantes desses países que "expressariam" sua vontade disso ou daquilo, sendo muitos exteriorismos, pesados castigos a quem quiser de afastar dessa religião e sentença de morte a quem não pertença à casta.
    Afinal, a deusa Alah não poderá "perder" seus cativos que mantèm há séculos sob esses governos absolutistas e mordomistas das elites e o povo lá em baixo submisso, senão "Alah" os castigará...
    Doutra forma, na Idade Media, graças ao cristianismo, a mentalidade centrou-se num Deus amigo, amor, que a todos quer bem, tem suas leis, mas ao contrario é uma lei interior, de poucos exteriorismos, de comunhão fraternal, a basear-se em Jesus de como passou por essa terra, e não do terror imposto pelas outra; por isso, difere substancialmente de todas as outras religiões por ser de origem divina, enquanto todas as outras, frutos de invencionices e conveniencias humanas, caso dos muçulmanos.

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