A resistência à racialização da sociedade brasileira

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Trechos do artigo de Demetrio Magnoli no Globo. Coloquei trechos porque queria contornar o tema jurídico do artigo, o processo de Joaquim Barbosa contra Ricardo Noblat, e ficar com o núcleo técnico. Quem quiser ler na íntegra siga o link, vale a pena. O assunto é urgente e importante.

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Podemos aceitar assertivas sobre caráter e atitudes baseadas na "raça" dos indivíduos? (...)  O problema de fundo da representação é que o Estado brasileiro oficializou as "raças", por meio de políticas raciais adotadas pelo Executivo, votadas pelo Congresso e avalizadas pelo Judiciário (...) De acordo com as políticas raciais em vigor, fundaram-se "direitos raciais" ligados ao ingresso no ensino superior, na pós-graduação e em carreiras do funcionalismo público. Os indivíduos beneficiários das cotas privilegiadas são descritos como "representantes" de uma "raça" — do presente e, também, do passado histórico dos "negros". Foi o próprio Estado que introduziu a "raça" (e, com ela, a linguagem racial!) no ordenamento político brasileiro. Os juízes que darão um veredicto sobre a ação contra Noblat provavelmente circundarão o problema de princípio — mas isto não o suprime.

Na democracia, a linguagem tem importância maior que a força. A linguagem racial introduziu-se entre nós a partir do alto. Pais são compelidos a definir a "raça" de seus filhos nas fichas de matrícula na escola. Jovens estudantes devem declarar uma "raça" nos umbrais de acesso às universidades. Na política, a cor e a "raça" converteram-se em referências corriqueiras. Lula da Silva invocou a cor da pele de Joaquim Barbosa como motivação para sua indicação ao Supremo (...) "Brancos" e "negros", essas entidades da imaginação racial, transformaram-se em objetos discursivos oficializados. 

Cotas raciais não existem para promover justiça social, mas para convencer as pessoas a usarem rótulos de identidade racial. Anos atrás, um amigo dileto confessou-me que, para produzir artigos contrários às políticas de raça, tinha de superar uma profunda contrariedade íntima. Perdemos cada vez que escrevemos as palavras "branco" e "negro", explicou-me com sabedoria, pois contribuímos involuntariamente na difusão da linguagem racial. Raças não existem — mas passam a existir na consciência dos indivíduos quando se cristalizam na linguagem cotidiana. Caminhamos bastante na estrada maldita da naturalização das raças (...) 

A resistência à racialização da sociedade brasileira exige, antes de tudo, que se rejeite a linguagem racial. Temos a obrigação de ser subversivos, de praticar a desobediência civil, de colocar os termos "raça", "brancos" e "negros" entre as devidas aspas.


A "pedagogia da raça" entranhou-se nas políticas de Estado. Dez anos atrás, um parecer do Conselho Nacional de Educação, que instruiu o "Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana", alertou os professores sobre "equívocos quanto a uma identidade humana universal". Segundo o MEC, os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos constituem, portanto, "equívocos": humanidade é uma abstração; a realidade encontra-se nas "raças". (...) A resposta antirracial a elas pode ser formulada em duas frases simples — mas, hoje, subversivas:

1) Joaquim Barbosa é igual a todos os demais seres humanos, pois existe, sim, "uma identidade humana universal";

2) Joaquim Barbosa é um indivíduo singular, diferente de todos os demais seres humanos, que são diferentes entre si.

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Nota do Frei: Eu me pergunto, se em algum formulário que exija o preenchimento "raça", eu escreva "SRD - Sem raça definida". Sim, SRD é acrônimo de Vira-Lata:

Vira-lata (...) é a denominação dada aos cães ou gatos sem raça definida, SRD (Sem Raça Definida), como são geralmente referenciados em textos veterinários. (...) Os SRD, por outro lado, são todos os cães e gatos que não têm origem definidas em um pedigree que é um certificado emitido por entidades oficiais atestando a ascendência do animal. Para obter um pedigree o animal tem que ter pais com o mesmo certificado. Entidades certificadoras exigem verificação de ninhada e mais recentemente a aplicação de microchips por veterinários. O animal pode ter a aparência de um cão de raça mas só o certificado atesta. Hoje, com o avanço dos exames de DNA, provavelmente há possibilidade de se definir se um cão é de uma determinada raça ou não, mas são exames ainda caros. Se houver qualquer mistura de raça (incluindo a cruza de dois animais de raça ou um de raça e um vira-lata) esse animal já será considerado um SRD.

Heinrich Himmler
Fiz questão de continuar o texto com a definição de pedigree canino para mostrar o quão ridícula e animalesca é a divisão humana por raças. Heinrich Himmler estaria orgulhoso do Brasil hoje em dia. Facilitaria muito o trabalho dele, já era seu departamento (Reichskommissar für die Festigung deutschen Volkstums; RKFDV) que tinha o chatíssimo trabalho de separar os habitantes da Alemanha por raças (veja mais no livro "Eichmann em Jerusalém" de Hannah Arendt). 

Eu posso me chamar de vira-lata, não posso? Pois bem! Não sou nem branco, nem negro, nem índio nem asiático. Sou SRD - Sem raça definida. Chupa IBGE! Fora racialismo! Fora Heinrich Himmler! Sou vira-lata, nenhuma ONG cuida de mim nem me dá benesses.

Nota do Frei 2: Não podemos deixar de lembrar com tristeza e pesar que o racialismo se imiscuiu na Igreja também. Como não pensar no deplorável "Frei" David e de sua ONG racialista Educafro, fazendo clivagem entre brasileiros por raça??? Isso em nome da religião em que de acordo com São Paulo Apóstolo "não há mais judeu nem grego (Gl 3,18)".  Mas estes racialistas podem mais que São Paulo Apóstolo, não?


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2 comentários:

  1. O QUE HÁ POR DETRÁS DESSA ARTIFICIAL divisão de pessoas por cor de pele, isso ou aquilo, são divagações dos dementes comunistas que necessitam de insurgirem pessoas e grupos uns contra os outros; daí criam o caos social, na tentativa de sobrepujar um suposto rival montado pelos comunistas, quer pessoa ou grupo.
    Mas, se um dia a todos dominar, inclusive seus supostos protegidos, como os negros, gays, lésbicas, quilombolas etc.; depois verão em que cilada caíram e, de repente, assim como os outros, tornaram-se escravos dos que simulavam defender-lhes as causas...
    A WC Cuba é um exemplo de todos os cidadãos agora "equalizados na escravidão"; isso é o que o PT quer para o Brasil, com seu voto!
    Na Coreia do Norte, os homens doravante adotarão o corte de cabelo como King Jong Un Fu Mo e para as mulheres existem cerca de 10... padrões....
    Eis a arapuca!

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  2. Há verdadeiramente um paradoxo nessa política petista. Poderíamos assim comparar a questão com a diferença entre Liberdade e Libertinagem, contida nas palavras do Apóstolo Paulo quando diz: "tudo posso, mas nem tudo me convém. Frei Clemente, do meu humilde ponto de vista, os petistas querem fazer, como bem disse Roger, pessoas e grupos se insurgirem. Eles fazem questão explícita de nublar a diferença entre RACIALISMO e RACISMO. E assim nosso País fica no eterno lenga-lenga.

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