O papa não é um pároco do interior ou "Eu aceitaria se fosse Alexandre..."

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Não comento muito de liturgia nem de sacramentos. Não é minha especialidade. Eu prefiro mais falar de História Sagrada, Exegese e Apologética. Cada um no seu quadrado. Não quer dizer que não entendo nada do assunto, entendo o suficiente para trabalhar na Igreja. As regras são exatamente simples. Se surgir alguma questão mais espinhosa, pergunto a alguém entendido.

Lá vai uma pergunta típica do tema de sacramentos: Um filho de pais casados só no civil pode ser batizado?

A resposta é clara para quem estudou. Há nuances, como se por exemplo um deles se opõe ao catolicismo, ou se trata-se de um raro caso de casamento religioso secreto. Mas há uma resposta melhor ainda agora e mais simples: O papa Francisco recentemente batizou o filho de um casal nestas condições. Ou seja, se o papa fez, está feito. O papa é infalível em doutrina e moral. Está ai um tema que pode ser abordado pelos dois. 

Agora vai a pergunta que lança o fel de Mefistófeles à Terra: É conveniente que o papa batizasse o filho de um casal em situação matrimonial irregular como que mostrando aos fiéis que uma coabitação irregular nem é tão mal assim?

Esta resposta não é fácil. Por um lado, "tudo é permitido, nem tudo é conveniente". O papa não é um pároco do interior, o que ele faz tem muito mais impacto e é imediatamente imitado urbe et orbe. Se eu aqui na paróquia der HIPOTETICAMENTE uma tapada de olhos para o Código de Direito Canônico para fazer um sacramento (que seja lícito em matéria e forma), bem, eu não sou infalível em fé e moral. Cai sobre mim minha eventual irregularidade. Davi comeu os pães de proposição no santuário e Cristo o usou como exemplo. Mas Davi comeu como perseguido e em necessidade, imagino se seria conveniente que o rei de Israel em situação normal fosse até o Santuário comer os pães dos sacerdotes. O rei Ozias, sem necessidade, usa o turíbulo de incenso no Templo e Deus o castiga com lepra. Davi perseguido come os pães dos sacerdotes e é elogiado. Ozias sem necessidade queima o incenso dos sacerdotes e é castigado. Dois reis, duas transgressões, dois momentos, dois destinos.

Foi como disse em artigos anteriores, o jesuíta rebelde tem seu charme enquanto padre, mas cuidado se quiser ser assim papa. O Beato Urbano V era um monge e um santo, quis ele transformar o castelo de Avignon, sede administrativa importantíssima da Igreja em mosteiro beneditino? Não. Os impostos deviam continuar a serem recolhidos, os diplomatas continuarem a ser recebidos, as guerras na Itália para proteger os Estados Pontifícios continuarem a serem decididas, os cardeais continuarem na sua vida de cardeais-mecenas, bispos sendo nomeados, guerras mediadas, sacramentos administrados, arquivos organizados, in summa, a vida da Igreja dependia dos órgãos instalados naquele castelo.  Ele transformou o SEU QUARTO em sua cela beneditina, mas o que era necessário para a administração da Santa Sé de seus antecessores deixou. Fez sim um jardim de inverno e chamou de "Roma" em tributo à diocese de que era o bispo. Tudo é permitido, nem tudo é conveniente. Que o papa vivesse como monge o faria ser santo. Que o papa se transformasse em monge seria uma tragédia. Urbano V, por ser papa e ser santo, sabia que poderia sacrificar o que dependesse da sua pessoa estritamente (ie, o quarto). Aquilo da qual a Igreja dependesse (Ie, a administração, representada pelo Castelo) não poderia sacrificar. Não deixa de ser um paralelo com Francisco que troucou de apartamento (pontifícios pela Santa Marta) mas tem sido muito prudente na modificação da Cúria.

Por outro lado, "conveniência" é uma droga. É, por exemplo, conveniente que o governo federal se cale sobre a barbárie no Maranhão e desça o sarrado na criminalidade de São Paulo por ser da oposição. Mas isso é ter dois pesos e duas medidas. A regra de Satanás é a conveniência, também. O Mal é mudar os mandamentos de acordo com sua conveniência. Não é a toa que Satã é tentador e castigador: Ele tenta ao pecado aos homens e castiga-os no Inferno depois. Em certo sentido, ter uma regra para o papa outra mais relaxada para o pároco tem um pé na hipocrisia. 

"Ah, o papa está mais alto e impacta mais, pareceu que ele não frisou a irregularidade do casamento não-canônico". De fato. Concordo. Se eu fosse ele  não faria pensando nisto. Mas ele é ele. Não deixa de ser uma política de redução de danos, numa época em que a família vem sendo destroçada tão implacavelmente, o casamento civil não deve ser desprezado, mesmo que seja estritamente um contrato entre partes, ao contrário do casamento de verdade, o casamento religioso.

Imagine quando o governo petista começar a perseguir seus desafetos políticos. É conveniente deixar se atender perseguidos na paróquia para não atrair a ira dos governantes petistas? Ah, sim, é conveniente, mas certo não seria. Até hoje em Israel Pio XII é caluniado por isto. E olha que ele salvou muitos judeus. Mas seus detratores exigiam dele um suicídio corajoso mais ineficiente em público, para que ele se danasse e não pudesse nem ajudar aos judeus, nem salvar a Igreja. Mesmo Lenin, que era mau, criticava aos primeiros revolucionários utópicos que morriam corajosamente nas forcas do Czar (inclusive seu irmão!), mas que eram tão amadores em seus esforços que não ajudavam a terrível Revolução a se concretizar.

Eu tendo a pensar que "Quod licet Iove, non licet bovi" ao contrário. A liberdade que é dada ao pároco não é dada ao papa. Mas sei que que estou andando na beirada do precipício do Inferno e posso acabar reprovando a Davi que foram elogiado por Cristo, ou aprovando a Ozias que fora condenado por Deus. Questões de conveniência dependem da conveniência, dependem de julgamento de momento e valores. Há poucas sérias e coisas inegociáveis realmente, a maioria das questões do mundo Deus deixou ao cargo de nosso bom senso e livre-arbítrio.

Complicada esta questão. Muito complicada. Termino o texto sem conclusões. Quando Dario III na metade de seu poder propôs ao vitorioso Alexandre que dividisse com ele o Império para não perder tudo, o general Parmênion disse "Eu aceitaria se fosse Alexandre", ao que o jovem rei respondeu: "Eu também aceitaria se fosse Parmênion". Ou seja, cada um com suas escolhas, se Parmênion estava satisfeito com meio Império Persa, Alexandre era Alexandre e queria tudo, se fosse Parmênion seria imperador da metade, se for Alexandre toma tudo. Tot capitas tot sententiae. Cada cabeça, uma sentença.  Eu não faria se fosse Francisco, mas os cardeais votaram nele, não em mim, que nem fui vigário, muito menos bispo ou papabili. Dar lições ao papa só com a fibra de Santa Catarina de Siena, eu daria conselhos se fosse como Catarina. 

Mas talvez eu seja o grande mal da Igreja, um prometéico neopelagiano ensimesmado...




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Um comentário:

  1. PREFIRO AGUARDAR MAIS PARA VER.
    ACREDITO QUE EM BREVE O QUADRO SE DELINEARÁ MELHOR.
    Abaixo está a carta do grande D Manuel Pestana aos bispos do Brasil, parecendo-se com o sr. frei:
    11 de agosto de 2010 – Apelo de Dom Pestana aos bispos do Brasil
    “Caros irmãos no Episcopado,
    Suportem-me, que o menor dos irmãos lhes possa dirigir uma palavrinha amiga, mas angustiada de quem se prepara, temeroso, para partir.
    Pelo amor de Deus! Estamos diante de uma situação humanamente irreversível. A América Latina, outrora “Continente da Esperança”, como a saudava João Paulo II, hoje mergulha na antecâmara do terrorismo vermelho, aliás, como prenunciava aos pastorinhos de Fátima a Senhora do Rosário.
    Podem parecer, a essa altura, resquícios de uma idade de trevas, mas tudo acontece como se ouviu em dezembro de 1917: “A Rússia comunista espalhará seus erros pelo mundo, com perseguições à Igreja, etc.”. Assusta-me a corrupção dentro da Igreja, o desmantelamento dos seminários, a maçonização de Cúrias e Movimentos.
    Horroriza-me a frieza com que olhamos tal estado de coisas. Somos pastores ou cães voltados contra as ovelhas? Somos ou não, além disso, cúmplices de uma política atéia empenhada em apagar os últimos traços da nossa vida cristã?
    Perdoem-me, mas não poderia deixar de falar, sem me sentir infiel à minha consciência e à minha Igreja.
    Parabéns a Dom Luiz Gonzaga Bergonzini e a Dom Henrique Soares da Costa”.




















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