"Cui bono?" - A quem favorece?

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Este é o problema MÁXIMO que enfrenta qualquer líder da Igreja. 

Vivemos num mundo de alegações políticas na mídia. A verdade interessa muito pouco. E somos muito preguiçosos (eu me inclui aqui) para lermos as fontes. Aliás, uma das consequências mais nefastas do pecado original é nos ter deixado preguiçosos de buscar a Verdade.

Fogo!!!
Alegações políticas são como balas de canhão, são lançadas apenas para causar dano no campo adversário, depois que ela saiu da boca do canhão do atirador, pouco importa sua trajetória desde que atinja e destrua alguma coisa ao cair. Não importa do que é feita a bala de canhão se ela destrói algo. Pode ser de aço maciço. Pode ser recheada de cal virgem para queimar. Pode ter fragmentos letais, explodir no ar e matar o máximo de soldados. Mas ninguém pensa em recuperar a bala depois, nem o que acontece com ela, conquanto que mate, conquanto que destrua, conquanto que quebre. Sendo assim, se o negócio é destruir um lado, você atira o que tiver a mão. Se tiver balas fragmentadoras para matar e mutilar os soldados inimigos, fogo! Se tiver balas maciças para derrubar paredes de um castelo, fogo! Relembrando a nonsense cena do castelo francês no filme do Monty Pithom, se tiver vacas para atirar no exército inimigo, fogo! O importante é matar, não a verdade.

Já falar a Verdade é como pousar um avião, não basta chegar ao chão, até as pedras chegam ao chão. O avião deve estar veloz o bastante para se manter no ar, porém lento o bastante para descer suavemente à pista. Deve estar alinhado, seja na horizontal  com a pista, seja na vertical para encostar na pista no ponto preciso e poder frear com segurança. Deve-se pousar com um imenso cuidado de manter intacto o que pousa, seus passageiros e sua carga, causando o menos transtorno possível. O avião deve estar intacto para voar de novo, e os passageiros tranquilos para que queiram voar de novo. Você fala a verdade para que seja de algum uso. Você quer conservar quem recebe a Verdade e a própria verdade em si. 

Cada vez que você vê uma manchete "Papa critica o capitalismo" isto é uma alegação política. Beneficia um lado. Mesmo que seja Verdade. O problema das alegações políticas é que estas balas de canhão são tão cruéis que podem ser atiradas quer sejam verdade, quer sejam mentira.

O papa Francisco reclamou no La Stampa que apenas falou a Doutrina Social da Igreja, ou seja, reclamou que disse a verdade quando criticou o capitalismo. De fato, de fato, ele disse a Verdade. Porém esta verdade foi usada como alegação política pelos artilheiros marxistas. A Igreja é muito acima do capitalismo e marxismo, e bem mais velha que eles. Aliás, a crítica é contra a acumulação de riquezas, quem nem é prerrogativa do capitalismo. Ricos, ricaços, nababos haviam no tempo escravista de Jesus. Havia no feudalismo. Havia e há aos montes no comunismo. E há no capitalismo. Neste ponto o capitalismo é até menos cruel, porque permite que mais gente com próprio esforço e de maneira honesta ascenda ao grêmio dos abastados. Não conseguiriam no escravismo antigo, nem no feudalismo medieval e nunca no comunismo moderno. Aliás, se me perguntarem qual sistema econômico é o mais evangélico, eu diria que "até agora é o capitalismo, sem dúvida". Se me perguntassem qual o menos ruim, eu diria, "até agora o capitalismo, sem dúvida". 

A crítica ao capitalismo é verdadeira, porém "Cui bono?", a quem favoreceu? Virou bala de canhão. Nenhum líder da Igreja deve ser cego o bastante para dar munição ao inimigo falando a verdade. Como disse, num artigo passado, sobre o médico que alerta um obeso sobre os perigos verdadeiros da anorexia, é contraproducente.  Há na doutrina da Igreja muita muita muita coisa, que pode ser atirada em todos os campos ideológicos. Que nenhum papa fique cego ao fato de que ao abrir o armário e retirar apenas críticas ao capitalismo que serão usadas contra o capitalismo. Mas há muito mais coisas na doutrina da Igreja contra o marxismo que contra o capitalismo. Muito, muito, mas muito mais. Você pode ser um cristão e defender o capitalismo, não há conflito. Se você defender o marxismo você está automaticamente excomungado, pelo menos na teoria, já que na prática ninguém, nem mesmo o alto clero, dá a mínima para esta antiga regra, sou realista. 

Quando o papa Francisco é obrigado a se defender de que não seja marxista, é porque na prática foi um marxista funcional, na prática ajudou os marxistas. Muita gente boa e bem intencionada é marxista funcional. As escamas não caíram dos olhos. Eu mesmo, Deus me perdoe, no passado já falei coisas na inocência que puderam ser usadas pelo marxismo e devo ter sido um funcional. Quem não foi? Acontece de maneira análoga com o pecado, todos que pecam na prática estão jogando o jogo do Diabo e são seus "funcionais" para espalhar o Mal. Mas Deus sabe do barro em que somos feitos. Deus quer nosso arrependimento. Portanto se fomos funcionais, seja do pecado, seja da sua filial marxista, Jesus pede que digamos "Chega!". O verdadeiro pecado sem perdão não é nenhuma dos pecados em específico, o pecado sem perdão é qualquer pecado do qual não se arrependa. Se fomos feitos de trouxas, pelo Diabo ou por Marx, rompamos agora, já, aqui e agora, HODIE ET CRAS, com esta tolice. 

Túmulo de Pio VII, Basílica de São Pedro
Acho que o atual papa tem uma visão míope do que ocorre no mundo. Não será o primeiro  papa, ao longo destes 2000 anos que meteu os pés pelas mãos. O que mais vemos são papas fazendo o contrário do que pede a prudência e a política. Em todos os períodos da História, TODOS. Na minha cabeça me vêem tantos exemplos de pisadas na bola dos papas, e eu me refiro a pisadas na bola politico-administrativas, que daria um livro de História da Igreja, aliás, isto é a História da Igreja.  Vou citar um único exemplo recente, em uma de suas encíclicas, Bento XVI advoga por maior fortalecimento da ONU para o combate a problemas transnacionais. Acontece que justamente esta ONU que é utilizada para implantar políticas anti-família e anti-cristandade. É verdade que dentro dela a Santa Sé bloqueia muita coisa ruim, o jogo não é franco nem limpo nos fóruns da ONU. Inocência de Bento XVI. Observem, leitores, que este é um erro estritamente político-administrativo, não doutrinário. Deus concedeu a Pedro a Infalibilidade em matéria de doutrina e moral, não político-administrativa. E quanto mais complexos são os tempo, a mais erros de julgamento estão sujeitos os pontífices. Os primeiros bispos de Roma, com tanta pastoral para fazer, erravam pouco na administração da jovem Igreja que ainda não pesava tanto (ou erravam muito mas a época não nos conservou a memória). Foi quando o mundo começou a ficar mais complicado que as oportunidades de dano se multiplicaram, veremos erros políticos colossais de Gregório VII, Celestino V, Bonifácio VIII,  Clemente V, Inocêncio VIII, Urbano V, Leão X, Clemente VII, Clemente XIV, Pio VI, Pio IX, Pio X, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II... Poucos papas foram príncipes de Maquiavel e quando o foram, como Melquíades, Libério, Leão III, Inocêncio III, João XXII, Clemente VI, Martinho V, Júlio II, Pio VII, isto foi usado para atacar a Igreja de mundanismo e heterodoxia, porque sua época pediu que fossem mais gerentes e generais que bispos e pastores. E alguns papas que foram elevados aos altares foram verdadeiras catástrofes como soberanos porque todo papa deve ser santo mas nem todo santo deve ser papa, nem todas as vocações à santidade tem as habilidades político-administrativas que o papado pede, Jesus escolheu 11 santos apóstolos, mas apenas um santo servia como papa entre eles, e como em toda época da Igreja, havia um canalha entre eles no clero. Exemplo notável foi Bento XVI, um homem que é considerado um santo doutor da Igreja ainda em vida, mas que foi esmagado pelo peso da administração, dos maus ministros, do peso dos males dentro da Igreja e da política internacional. (Cai em tentação de falar de História da Igreja, mas deixo a cargo de meus leitores irem procurar porque considerei tal pontífice isso ou aquilo)

Na Basílica de São Paulo Extramuros
Fico feliz que Francisco tenha visto a contestação a suas palavras na exortação. Que ele medite e pondere o impacto que elas tem além do que originalmente ele prevê. Bento XVI aprendeu isto por via dolorosa, mesmo sendo mais sábio. No início do pontificado, achei que Francisco fosse um papa estilo príncipe de Maquiavel, um bom Alexandre VI. Agora começo a achar que é muito menos esperto que imaginava, homem vaidoso com amor às próprias palavras, que ainda tenta manter o estilo de padre rebelde mas esqueceu que está lá em cima, e que quem se rebela no topo da árvore apenas balança tudo e não conserta nada. Quando se está no topo de uma organização não se faz auto-crítica, e sim reformas. Tudo bem, ele está aprendendo. De jesuíta rebelde carregando o fardo extra de sua mediocridade latino-americana, ele há de aprender. Há um charme no jesuíta rebelde bocudo enquanto continua padre, quando vira bispo é melhor trocar a fantasia, ainda mais bispo de Roma, que não perdoa aos amadores. O bispo de Roma é o cavaleiro da História, este cavalo é bravo e lança ao chão quem não tem habilidade em suas rédeas. 

Prevejo - e escrevo aqui como honestidade intelectual, que meus leitores julguem no futuro a minha lógica - que Francisco será um papa bem pouco querido ao final do pontificado. Não porque fala a Verdade que gera a inimizade do Mundo, infelizmente não por causa disto. Ele será bem pouco querido porque vai desagradar a gregos e a troianos: Vai desapontar aos liberais que esperavam reformas que nunca virão (Francisco é um conservador) e vai (já está) desapontando aos conservadores, com suas vaidosas declarações descuidadas que servem de alegação política aos inimigos da Igreja. Será uma triste velhice, a moda Paulo VI. Veremos. Quero sempre estar errado. 



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Um comentário:

  1. SE ELE FOSSE MAIS DETALHISTA AO SE EXPRESSAR, EVITARIA QUE AS IDEOLOGIAS SE APROVEITASSEM DE SUAS CORRETAS ALOCUÇÕES.
    O Papa Francisco tem combatido o capitalismo de infindo acúmulo, e como, tem toda razão, mas os comunistas se aproveitam de suas falas pois eles mesmos simulam fazê-lo, e são especialistas em dissimularem as intenções, além de contarem com a mídia globalista que frauda e deturpa recorrentemente os pronunciamentos e documentos papais; nisso, ninguém pode com eles!
    Aí entraria o detalhe: explicitaria no ato de combater o capitalismo explorador, tanto das grandes corporações assim como de governos totalitaristas comunistas simuladores de o combater, os quais sugerem defender os pobres dos mesmos apenas na teoria, sendo na prática os verdadeiros burgueses e capitalistas de Estado, muito pior, além de ultra escravagistas.
    Aí sim, não daria mais ainda chance ao oportunismo dos mal-intencionados, pois a ética dos partidos comunistas é o momento e a circunstancia conveniente de beneficiar ao partido e a si, e desmerecer a Igreja, pois as críticas do papa Francisco direcionadas em quem incidisse - esclarecesse em quais circunstancias se dá e quem pratica o reprovável capitalismo - calariam-se ou tentariam se defender, porém, por criticar abertamente o capitalismo sem esmiuçar em que ocasiões e com quem pode ocorrer, hipocritamente propagam ser ele o papa dos pobres - assanha os da TL e correlatos - incautamente os beneficiaria, deixaria-se ser instrumentalizado por eles, apesar de as intenções dele serem as melhores possíveis e querer se pautar sob a doutrina da Igreja.

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