Rei(ceita) do Camarote

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Catão, o censor
Os romanos criaram um dos mais opulentos Impérios jamais sonhados no mundo e principal razão do diferencial da Europa ocidental. Talvez só a Pérsia foi rival à Roma em riquezas e demonstração dela. Ironicamente, os romanos, assim como os persas, conquistaram seu império a base de muita pobreza e ascetismo. Tanto que os romanos tinham um cargo no governo dos mais curiosos, o de censor. O censor não era um magistrado com "poder de compelir" ou de liderar os exércitos (imperium) como eram os consules ou pretores, mas tinha a seu cargo duas tarefas do mais alto prestígio na República Romana: Os censores faziam o censo dos cidadãos da República (o censo era tão importante e tão sagrado para os antigos que quando ordenado por Deus à Moisés deu o nome ao livro de Números, e quando feito temerariamente pelo Rei Davi foi causa de terrível punição do Altíssimo) e os censores controlavam a moral e os bons costumes. Os censores costumavam ser os senadores mais seniores, e foi ilustrado pela figura famosa de Marcus Porcius Catão, rigoroso filósofo estóico. Os censores proibiam, multavam e controlavam a ostentação na República. Daí "censura" e "censor" em português moderno não significar o ofício de  fazer o "censo" (que o IBGE faz) mas sim à odiosa tarefa de proibir manifestações. 

Festinha romana familiar
A censura em Roma acabou por artes dos Imperadores, que ao reunirem em si todas as magistraturas romanas também eram legalmente os censores. Mas era a mesma coisa que o chefe da quadrilha ser promotor, já que os Imperadores eram os maiores esbanjadores, glutões e ostentadores do mundo. Diz-se que Calígula numa festa gastou a renda anual de três províncias romanas. Havia muita graça mesmo em saber que Nero era o censor. O Imperador Décio, aquele que perseguiu os cristãos, bem que tentou reestabelecer o cargo de censor mas não conseguiu, faltaram candidatos a tão ingrata tarefa num império já decadente mas ainda riquíssimo.

Hoje em dia o nosso censor moderno do suntuarismo é a Receita Federal. Não que seja sua tarefa, porque tecnicamente o censor que faz o censo é o IBGE. A Receita é nossa censora porque mantém suas anteninhas rigorosamente ligadas a detecção de sinais de enriquecimento. E que sinal mais claro de enriquecimento que esbanjamento? Garanto que os computadores da Receita na sua tarefa incessante de contar cada denário em circulação no Império do Brasil detectam mais criminosos que todos esforços do Ministério Público e da Polícia Federal juntos. 

Don Giovanni era um rei do camarote também
Todos falam do "Rei do Camarote", um sujeito que esbanja o que é seu. Rigorosamente falando, liberalisticamente falando, gastar o que é seu não é problema. Pode-se dar uma de Catão e falar da temperança, da prudência, etc e tal mas se alguém usa seu próprio ganho para comparar sessenta garrafas do melhor campanhe, melhor que seja o próprio ganho que o ganho alheio. No aspecto cristão, os evangelhos narram a punição do rico epulão, que festejava enquanto Lázaro morria de fome a sua porta. De fato, é demeritório não ajudar quem está precisando tão proximamente. Por outro lado simplesmente dividir dinheiro não adianta nada, não foi dividir seu dinheiro com os pobres que fez o fiscal corrupto Zaqueu se salvar, e sim ter devolvido o que roubou. O jovem rico fazia cumpria muito bem os mandamentos, Cristo pediu que dividisse sua riqueza e que o seguisse para a perfeição, deixando ai duas lições: Ao se empobrecer em caridade, o jovem não chegaria à perfeição se não seguisse Cristo como apóstolo, mostrando que não é só dar que aperfeiçoa, e sima graça do discipulado. A segunda lição é que o jovem já fazia bem sua vida, mesmo sendo rico, se ele poderia atingir a perfeição era porque empobrecer-se era apenas algo a mais de melhoria, porém acessório e opcional. A perspectiva cristã é muito mais densa que simplesmente ser contra ou a favor da riqueza, vão aos Inferno ricos e pobres, não porque sejam apenas ricos ou não porque é sempre meritório ser apenas pobre. Houve papas que enquanto viveram na riqueza como príncipes no fundo eram pobres, porque tudo era da Santa Sé, não deles. 

Roubar com o governo: De tão comum nem mais se sente
Leio que o "Rei do Camarote" está preocupado com a Receita Federal em seu encalço.  Eu me pergunto que país de titica é o nosso em que a simples manifestação de riqueza já é vista como sonegação. Ou seja, tacitamente admite-se que nosso Estado é tão sufocante que a acumulação de riqueza mesmo é algo impraticável, se alguém está rico é porque sonegou "o que é de César". Isso porque o IGF, Imposto sobre Grandes Fortunas, previsto na Constituição Federal, nem sequer foi regulamentado... E me esta mesma por vezes hipócrita Constituição proíbe o uso do imposto para fins de confisco, ainda que admita que o imposto confisque toda a possibilidade de enriquecer do cidadão. 

Maquiavel, com fina ironia, dizia que quem era liberal com o que é seu iria se arruinar, enquanto quem vivia de rapina e de pilhar o quer era dos outros se enobrecia. Nossa querida Receita Federal também tem o componente de hipocrisia de nossos censores-Imperadores Césares: quando um político enriquece, sinal de roubo e corrupção no trato da coisa pública, pelo costume já nem mais se sente. Não vejo os fiscais preocupados com as mansões dos políticos, assim como os Imperadores não faziam censura nas próprias festas de arromba. 

 É como o conto de Vieira do pirata preso por Alexandre, o Grande: "Eu que roubo num navio sou pirata, o senhor que rouba com um exército é Imperador!".


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Um comentário:

  1. Is 14, 13-15: “Que dizias no teu coração: subirei ao céu, estabelecerei o meu trono acima dos astros de Deus, sentar-me-ei sobre o monte da aliança, aos lados do aquilão. Sobrepujarei a altura das nuvens. E contudo foste precipitado no inferno.
    Lembra-se das gastanças de Dilma em Roma que chamou atenção até de jornais europeus?
    Os governantes comunistas, sem exceção, praticam integralmente a Rei(ceita) do Camarote, por não terem compromisso algum com ninguém, apenas com o Estado e, como eles julgam sê-lo, fica tudo em casa.
    Até aos dias atuais em que todos devem até as calças que vestem, as casas onde moram, a educação dos filhos, a saúde, a segurança, a própria vida, os pensamentos, os sonhos, a independência e soberania nacional, sob um governo de ideologia comunista a coisa permanece; evidente: com ajuda dos incautos eleitores que acreditam em Papa Noel.
    E quem quiser uma ilustração desta realidade do globaritarismo capimunista, governo real que subjuga e aterroriza, de modo ilustrado e didático, pode conferir também com as "boas obras" dos ex ditadores das ex repúblicas da Cortina de Ferro no sentido proposto pelo post, com as infindas festanças em seus palácios reais dignos dos CAPITALISTAS DE ESTADO, tendo como exemplo a mulher de Kim Jong Un usando as melhores griffes de Paris em meio à miséria do país!

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