A Palavra não muda, mas os ouvidos e as bocas mudam

/
0 Comentários
Sobre o artigo da Unam Sanctam sendo citada indiscriminadamente hoje em dia, recebi este comentário: "Não entendi,o Sr. está dizendo que os Dogmas evolui de acordo com a mentalidade da época para com isso poder se encaixar com o pensamento hodierno? Esse seu texto não consegui entender caríssimo Frei, poderia explicar melhor para mim não cometer alguma falta contra a Igreja Católica."

Frei responde:

Ui, Quase dá para ler seus pensamentos "HERESY DETECTED!"

Nunca disse que "os dogmas mudam de acordo com a mentalidade do tempo". Esconjuro, Sinal da Cruz, Creio em Deus Pai, "Vade retro, Satanás, porque tu não ensinas as coisas de Deus, mas dos homens!", com direito ao exorcismo de Leão XIII. 


Estou dizendo que os ensinamentos não mudam porque "Céus e terras passarão, mas minha Palavra não passará" Lc 21,33; mas os ouvidos e as bocas mudam.  "Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança." I Cor 13,11

Se compararmos um homem moderno a um medieval, veremos que são bem diferentes. O homem moderno sabe muito mais das ciências, mas o medieval sabia muito mais de lógica e como isto se ligava à religião. Melhoramos nas Ciências, mas pioramos na universalidade dos conhecimentos. Um sábio medieval entendia pouco de muita coisa, mas sabia as unir mais. Era a época dos doutores universais, como Santo Alberto Magno ("O" doutor universal) e até mesmo São Tomás sabia um pouco de tudo. Qualquer sábio moderno sabe muito da sua especialidade, mas é ignorante em outros assuntos. Assim, como apenas exemplos, os físicos não falam com a teologia, os biólogos não compreendem de artes, os juristas não atinam com a matemática. Um doutor medieval conhecia música, geometria, lógica, artes, teologia... Um doutor moderno em química é muito sábio em química e ponto final. Sabe mais que Paracelso jamais sonhou saber, mas terá dificuldade em definir o que é música ou qual as propriedades do livre-arbítrio, coisa que qualquer aspirante a uma universidade medieval saberia. Ao mesmo tempo, o homem medieval era muito mais saudável de mente que de corpo, o homem moderno parece doente de mente ainda que bem de corpo (quer dizer, o homem "europeu" para tomar de base de comparação, não das regiões famélicas do mundo). Sim, o homem medieval morria de peste bubônica que um dos nossos antibióticos dão conta. Mas o homem moderno se mata de nihilismo, de falta de esperança e sentido na vida, coisa que um medieval sabia que tudo estava nas mãos de Deus e que havia um sentido em tudo. Se nós achamos inconcebível como os medievais morriam com qualquer doença ou iam morrer nas cruzadas, um medieval acharia inconcebível que um homem moderno se questionasse das coisas mais básicas como a certeza da existência da realidade ou do Criador, ou se deixasse enganar feito cordeirinho por falsos consensos e falsos pensamentos. Um camponês medieval, por exemplo, não cairia na conversa fiada de "luta de classes" de Marx. Ele diria ao furunculoso: "Os nobres me protegem, os padres oram por mim e me ensinam, e eu que sou um parvo ignorante trabalho. Estamos quites. Aliás, eu acho até que eu levo vantagem, porque estudar como os padres é difícil, guerrear como os barões é doloroso, trabalhar de lavrador é o mais fácil de tudo..."

A Unam Sanctam foi escrita para pôr nos trilhos um rei medieval por um papa não menos belicoso. Seu texto causa incompreensão hoje em dia e aparente conflito com o magistério mais recente, o que é uma impossibilidade teológica. Para o homem do século XXI, melhor usar os textos dos papas e concílios dos séculos XX e XXI.

Um texto fora do contexto é pretexto. Esta é a regrinha básica. Nosso contexto está bem longe daquele da Unam Sanctam. Sendo assim, a despeito de tudo o que vem nela ser correto(*), ela não é a ferramente catequética mais adequada em nossos tempos. 

Alguém dirá "Ah, então isso se aplica também à Escritura?" Eu digo que sim, ora. Que padre no domingo em que se lê "Se alguém vem a mim e não odiar seu  pai e sua mãe" não tem de explicar que este odiar significa "deixar de dar preferência", que não é ódio no sentido de desejar o mal, violando o mandamento do decálogo? Para o público da antiguidade palestina não gerou escândalo algum, para nós gera se não for explicada. Mesmo os textos veterotestamentários que antecederam Jesus não tinham de ser explicados? O próprio Cristo depois de ressuscitado não passou horas na caminhada a Emaús explicando os profetas de cinco a sete séculos antes? São Filipe Apóstolo não teve de explicar o já cinco vezes centenário texto de Isaías para o eunuco da rainha da Etiópia que não estava entendendo? Um perplexo Agostinho não lutava com o sentido da Bíblia (então dezesseis séculos mais nova) até ouvir as pregações de Santo Ambrósio clarificando?

Se quiser pensar que nossas orelhas é que pioraram, é um pensamento muito válido, as vezes eu acho isso também. Talvez tenhamos feito o caminho inverso ao descrito por Paulo, na Idade Média é que éramos homens, hoje em dia viramos crianças, somos os Benjamin Buttons do conhecimento... Infelizmente é possível ser muito douto nas ciências modernas e completamente imaturo como homem. Vemos exemplos as pencas em nossas Universidades, que estão bem longe do que eram as Universidades Medievais, inclusive as PUCs...

A Unam Sanctam é de sua época, feita para esquentar as orelhas de Filipe IV. Quanto a nós, que mal aplicamos as palavras santas e verdadeiras da Lumen Gentium e mal tocamos na Lumen Fidei, ainda temos que fazer muita lição de casa entendendo os papas dos últimos cem anos antes de irmos aos papas de setecentos anos atrás que viviam num mundo bem diferente do nosso com gente bem diferente da nossa...

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e Senhor nosso, o bom pastor, que veio para salvar os homens de todas as épocas com uma mensagem que de tão eterna e perene só poderia ter sido mesma saída da boca de Deus, porque conhecimento humano algum poderia gerar algo tão sólido e tão perfeito como o Evangelho de Cristo: "Céus e terras passarão, mas minha Palavra não passará" Lc 21,33

--*--

(*) - Nota histórica: Como a infalibilidade papal em 1302 não estava definida, houve escritores eclesiásticos (preferencialmente ligados ao rei da França) que disseram ser a Unam Sanctam herética e quiseram fazer (não sei se o fizeram, ou se o fizeram, se sobreviveram os textos) refutações à bula. Aliás, William de Occam, o grande pensador eclesiástico medieval, chamou o quarto sucessor de Bonifácio VIII, João XXII, inclusive de herege (por outros motivos, logicamente) e inclusive apoiou um antipapa. Como a lei não retroage, seja na civil, seja na canônica, não podemos com um dogma do século XIX condenar um pensador do século XIV. Aliás este é um dos raros momentos em que o homem moderno é mais ortodoxo que o medival...


Você também pode gostar

Nenhum comentário:

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.