O Papa e o bolivarianismo

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Mac Margolis, Via Estadão - A viagem do papa Francisco à América do Sul deixou um rastro de esperança. Nenhum lugar vibrou mais com a visita do que os palácios de poder, onde os inquilinos da hora bem que poderiam aproveitar de uma bênção. Com seus maiores mercados externos, China e EUA, em marcha lenta e manifestantes à solta nas ruas (no Brasil, Chile e Argentina), o mau humor sobrou para os governantes. Muitos amargam um desgastante segundo mandato e há tempos já perderam o encanto e o impulso para reformas.

Nada melhor para lustrar a mesmice que a aura alheia. Melhor ainda se for pelas luzes do carismático Francisco, que por onde pisa consegue arrastar milhões. Conservadores, social-democratas, bolivarianos, não importa a flâmula. Os líderes latinos correram para o beija-mão. No Rio, além da anfitriã Dilma Rousseff, estiveram na Jornada Mundial da Juventude a presidente argentina Cristina Kirchner, o boliviano Evo Morales e até Desi Bouterse, do Suriname.

No entanto, a peregrinação começou antes. Mal dissipada a fumaça branca do conclave de março, quatro presidentes da região viajaram a Roma para congratular-se com o novo papa, com Cristina à frente. No seu encalço seguiu Nicolás Maduro, da Venezuela, que propôs um tratado inusitado entre o Vaticano e os países do socialismo do século 21. Rasgando o protocolo, o equatoriano Rafael Correa, outro sócio do compacto bolivariano, agarrou o papa num demorado abraço.

Não foi sempre assim. Há poucos anos, com o caudilhismo em fervura nos Andes e na Bacia do Prata, a política e a Igreja andavam às turras. Em homilia histórica, em 2004, o então cardeal Jorge Mario Bergoglio advertiu os fiéis argentinos contra os perigos da política de "exibicionismo e anúncios estridentes". O presidente Nestor Kirchner entendeu o recado, saiu da igreja e nunca mas voltou a assistir a uma missa do arcebispo Bergoglio. Cristina herdou o ranço, elevando a uma guerra fria o embate entre Igreja e Casa Rosada.

Na Venezuela, Hugo Chávez travou briga de foice com o bispado do país, chamando a Igreja de "um tumor" na sua revolução e exigiu que o Vaticano não metesse sua mitra na política. Não foi diferente na Nicarágua, onde Daniel Ortega entrou em choque com o bispado do país, que duvidou da "legalidade e da honestidade" da eleição do sandinista, em 2011. A paz foi restaurado apenas após a intervenção de Fidel Castro e do reverendo americano Jesse Jackson.

A crise chegou à Bolívia quando o governo promulgou a nova Constituição, em 2009, em louvor à "deusa da terra Pachamama", para dissabor da hierarquia católica. Evo revidou, tachando os religiosos de "os novos inimigos" do país. "Outra fé, outra religião, outra Igreja é possível", decretou. Francisco mexeu com o tabuleiro político e amorteceu os limites latinos. Com a ascensão do primeiro papa latino-americano, preocupado com a pobreza e com o distanciamento do clero de seu rebanho, a religiosidade desponta como forte rival à catequese bolivariana.

A doutrina social da Igreja não é nova, mas na mão do jesuíta, simpático, despojado e com pouca paciência para o claustro das paróquias, ressuscita como uma resposta sonora ao antagonismo, ao arbítrio e ao populismo palaciano, regado ao dizimo de petrodólares.

Ao exortar os religiosos a fazer "elos" com o povo e levar "a Igreja às ruas", Francisco apropria-se da pauta dos revolucionários. No seu tempo, Chávez até que conseguia levar multidões à praça pública. Agora, com Francisco, há competição na paróquia. Os populistas de plantão podem não estar de joelhos, mas todos dizem amém.



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