O domínio do anti-intelectualismo na Igreja católica

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4 Comentários
Excelente - como sempre - texto do blog do Conde Loppeaux. Concordo bem concordadinho. Perdemos a estética católica, estamos copiando a estética neopentecostal faz tempo. Faz faz faz faz tempo! Somos evangélicos, só que com o papa e Maria. 

Eu tenho uma repulsa profunda pela "neopentecostalização compulsória" que a RCC promove nas paróquias. 

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Não escondi certo desgosto ao ver a matéria do Globo Repórter, do dia 20 de julho de 2013, a respeito da Igreja Católica no Brasil, em particular, relacionada à Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. Parece que a emissora deu preferência aos chamados "carismáticos", membros da chamada RCC (Renovação Carismática Católica). Confesso, não consegui reconhecer nenhum católico ali. Não me reconheci naqueles grupos. Presenciei ali o excessivo anti-intelectualismo, a religião reduzida à emoção dispersa, romântica e de conotação duvidosa, além de uma apropriação indevida de toda a linguagem do pentecostalismo evangélico, descaracterizando o autêntico catolicismo. Quem dirá que os ditos devotos da Renovação Carismática são realmente católicos, com seu informalismo grosseiro, seu desprezo pela liturgia e sua pretensa nivelação do clero ao leigo? Vê-se claramente a perda de identidade da fé católica e sua "protestantização". O Espírito Santo foi vulgarizado e todo mundo virou "apóstolo" de ocasião.

Os "carismáticos" ministram curas, milagres, promessas de emprego, orações e leituras da bíblia. Na verdade, a bíblia ganhou um destaque perigoso de quase "sola scriptura", já que muitos a interpretam quase que fora do Magistério da Igreja. Os símbolos, o modo de falar e a linguagem não parecem nada católicos. Nada mais triste e deprimente do que o catolicismo macaqueando e plagiando os neo-pentecostais. 

Vejo alguns "carismáticos" navegando pelos grotões da Amazônia, ministrando a missa sem a presença de um clérigo. Os leigos, elevados a "missionários", agora substituem os padres na consagração da hóstia. Por que não ordená-los pastores também? Que clero preguiçoso é o brasileiro. Deixa para os leigos o que é incapaz de fazer! 

Patética foi a Rede Globo promover a canonização de um falecido padre surfistinha elevado a "santo popular". O Brasil é um país pobre de mística, de santidade e de caridade. O catolicismo brasileiro vive em dois extremos degradantes, do formalismo excessivo e obtuso dos tradicionalistas ao choramingo ralo e extremo dos heterodoxos superficiais. E os carismáticos, carentes de qualquer conceito elevado de mística, promovem gente comum, sem qualquer brilho existencial, à "santidade", pela meia dúzia de atos caridosos que são deveres de qualquer pessoa. Assoma-se a isso à futilidade intelectual comum dos surfistas "cristãos" vistos na reportagem, tapados como uma prancha de surf, cheios de uma devoção tão crédula como tola. Para ser santo não basta ser bom. Há gente que fez muito mais pela humanidade e não virou santo. Mas o brasileiro médio, na frivolidade vergonhosa da própria religião, transforma até o espírita Chico Xavier num santo católico!

Em outra cena, a emissora filma o chamado "funk católico", "rap católico", "rock católico", enfim, porcarias atualmente nomeadas como "católicas". Milhares de pessoas dançam, gritam e esperneiam, achando que ali encontrarão Jesus Cristo e a Virgem Maria. Uma mocinha delirante da turba reverbera: - Aqui encontro Deus! Pergunto-me se a meditação, a oração e a reflexão sobrevivem autenticamente numa missa, ao mar de gritarias histéricas barulhentas e danças frenéticas de músicas típicas de bandidos, prostitutas, traficantes e cafetões? Ao que parece, o homem da atualidade detesta o silêncio. Aquela busca interior na quietude, ouvindo tão somente os sons da alma e os questionamentos pessoais da oração, dilui-se na tempestade de tapas, sons repetitivos e falta de gosto musical elementar. A música sacra e o órgão da Igreja, junto com os sons do coral, pediram demissão do recinto. Alguém imaginaria o canto gregoriano ou algo mais polifônico? Quem sabe o compositor Lorenzo Perosi e os belos e melancólicos sons da época de São Pio X? Nada disso. Uma orquestra desafinada, com muita bateria para explodir os tímpanos. 

Talvez os tambores da macumba pudessem ser mais úteis, religiosamente falando, aos "carismáticos". Os seus músicos nutrem uma completa inoperância estética. Perdeu-se a linha divisória entre o sagrado e o profano. O homenzinho médio "carismático" acha que a Missa é a extensão de sua balada. Sua religiosidade deficitária faz com que a Igreja seja o quintal de sua vida mundana. Daí a missa, que é um ritual trágico do sacrifício de Nosso Senhor, se tornar apenas uma noitada da boate. Basta chamar o DJ, mudar as letrinhas pornográficas e a batucada fica mais interessante. Retire o funk católico, a balada católica, o rap católico e todo mundo vira protestante de vez! 

Poucas coisas me assustam mais do que ouvir um padre falar como se fosse um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus. Com o direito de finalizar, toda vez que afirma alguma coisa, gritando"amém", replicando aquela intonação antipática digna do programa da Record "Fala que eu te escuto"! Fazemos parte da "Igreja Universal" sim, mas não do "bispo" Edir Macedo. 

Se a estética musical é desagradável, que dirá das igrejas construídas pelos "carismáticos"? É de profundo mau gosto ver a "igreja" do Padre Marcelo Rossi. Mais parece um terreiro de gafieira com uma grande lona por cima. Com direito a cadeirinhas de plástico. Será que alguém desse meio sabe da existência da Catedral de Colônia, Notre Dame ou Santiago de Compostela? Aqueles monumentos espirituais imensos construídos sob pedras, que refletem a magnitude da Igreja e a pequenez do homem para com Deus? Nada. A igreja Católica se tornou comum como qualquer outra. Pode-se confundir a Igreja Católica com as seitas evangélicas. Pode-se, inclusive, confundir a Igreja Católica com alguma fábrica abandonada, uma funerária, um galpão ou uma repartição pública. Dá no mesmo. 

O Globo Repórter também entrevistou os lunáticos franciscanos da "Toca de Assis". Quando eu penso em "toca", já imagino num ogro saindo da caverna. O pessoal da Toca de Assis parece um bando de hippies. Cheiram mal, dormem no chão e não possuem noções mínimas de higiene. Por que tanto sacríficio para nada, se um bom banho ao menos resolveria? O melhor franciscano que existiu, sem dúvida, foi o poverello de Assis. E depois dele, Santo Antonio de Lisboa e outras boas almas. De resto, os membros da Ordem começaram a criar problemas. No século XIII, pregavam heresias de idolatria à pobreza, querendo reduzir a humanidade a um sistema de mendicância comunista. Depois fizeram um estrago filosófico tremendo na teologia e filosofia, com a radicalização do nominalismo no século XIV. Duns Scoto e Occam que o digam! E séculos depois veio a doutrina marxista de Leonardo Boff da vida até chegar às idiossincrasias da "toca"! É uma revolta intelectual contra a realidade por detrás da outra. 

Não se pode tirar o mérito dos atos de caridade que se vê dos grupos católicos na reportagem em questão. Entretanto, esses segmentos estão caindo num perigoso irracionalismo disfarçado de devoção. A mística empobrecida, a religiosidade pífia, a carência de elementos estéticos das manifestações de fé, a descaracterização da solenidade da liturgia, dentre outros, são sinais claros da ignorância que se tem com a Tradição da Igreja. Quando se vê padres que acham qualquer música podre como instrumentos de mensagem divina ou quando não se sabe mais respeitar a sacralidade do silêncio, é porque alguma coisa está errada na visão destas pessoas. Acreditam que vivem a religião, mas estão mundanas. Não sabem dar o que é de César, nem mesmo o que é de Deus. A Renovação Carismática Católica é um dos maiores engodos doutrinários, litúrgicos e devocionais da Igreja Católica.



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4 comentários:

  1. DESSA VEZ O SR FREI USOU A METRANCA GIRATORIA!
    PROMOVER NOVIDADEIROS E ATACAR O CATOLICISMO CONSERVADOR É COM A GLOBO MESMO!
    Antes de mais nada acredito que a Igreja esteja infestada e muito de protestantes, varios leigos auto intérrpretes da bíblia e da fé, mas particularmente representando-se pelos grupos RCCs, seriam quase todos; o pentecostalismo, por sinal, é de origem protestante.
    Aliás, fui vizinho de um desses amontoados e os exorcismos(?), berreiros, entidades se manifestando e sendo expulsas(?) eram aos montões...
    Têem dito por aí: a RCC é porta de entrada para as seitas protestantes; nada disso: são elas dentro da Igreja em pleno desabrochar!
    O nosso saudoso emérito papa Bento XVI muito repreendeu os grupos "auês" RCCs desejando passarem-se por católicos - é extenso o assunto - e os tachou explicitamente de pentecostalistas protestantes e sincréticos religiosos!
    Um rccista bandear para uma seita protestante será apenas questão de mudança de endereço, nada mais; interessante é como se esforçam em levar pessoas para o grupo, de forma como agem dissensos entre si os supostos evangélicos...
    Pe Marcelo Rossi tem relativistas antecedentes religiosos interpelativos: livros com pitadinhas de gnose, prática do pentecostalismo, apoio ao PT e a amigos afinados ao partido...
    Só mesmo seu bispo D Fernando A Figueiredo para o apoiar, o tal que teria convidado Haddad a uma celebração...
    Já o Grão Mestre do relativismo Pe Fabio de Melo o é em pessoa!
    No fundo, os movimentos ativistas religiosos oriundos da Igreja como Toca de Assis - já li sobre certas ações estranhas - se não mantiverem elos sólidos com a tradição da Igreja e sua doutrina esvaem-se ou caem sob o tacão de espertalhões ideológicos, como da expert no assunto, a Engenharia Social Marxista, que sabe manipular tais grupos a seu serviço, provando-o quando os evidencia em demasiado.
    Seria o Toca um "Fora do Eixo"-FdE do Capilé doutra modalidade?

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  2. "Concordo bem concordadinho." (2)

    Muito boa também a analogia: "evangélicos, só que com o papa e Maria."

    RCC nada mais são do que isso relatado. Muita gritaria, muita agitação, essas musiquinhas de "sei lá o que católico"
    Pregações baseadas em pastores pentecostais, apelo emocional barato, oração em línguas (???).

    A propósito, coincidentemente saiu hoje, no site do Padre Paulo Ricardo, um vídeo relacionado a esse tema:
    O neoprotestantismo dentro da Igreja Católica
    http://padrepauloricardo.org/episodios/o-neoprotestantismo-dentro-da-igreja-catolica

    No vídeo é comentado uma essência protestante: "Cada protestante é o seu próprio Papa."
    E é o que vemos em muitos pseudo-católicos.
    Aqueles que escolhem qual dogma servir, a sua própria interpretação das Sagradas Escrituras. Querem moldar a Igreja de Cristo a seu bel-prazer, com sua própria infalibilidade.

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  3. A RCC tem seus defeitos e seus méritos, concordo que são evangélicos com o papa e Maria. Sim todos somos evangélicos com Papa, com Maria e seu rosário, da Eucaristia e também do evangelho. Protestantes, não.
    Apesar dos excessos, deve-se a RCC o retorno da Adoração do Santíssimo Sacramento, os membros da Renovação, não raro tem o terço envolto a sua mão. Estudos bíblicos e etc. Os Grupos de Oração, quem poderá negar-lhes o valor. Membros que visitam doentes idosos. Além do que, sujeitam-se incondicionalmente ao seu pároco ou orientador espiritual. Se algo não condiz, cabe a quem dirige corrigir. Pedro Luiz.

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  4. Texto intenso. Alguém precisava escreve-lo; e muitos precisam lê-lo. Precisamente muitos bispos...

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