Um quarto de milésimo

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Quando se varre a casa, acham-se as dracmas perdidas. Eu tinha já comentado o prejuízo da Santa Sé. Graças a São Mateus, posso comentar dos lucros. Vejam a notícia. Antes de lerem, replico um post antigo em que explico a diferença entre Santa Sé e Estado do Vaticano:

Filhos, lembrem-se que o Estado do Vaticano não é a Santa Sé. A Santa Sé é cliente do Estado do Vaticano e tem milênios de antecedência. São duas pessoas jurídicas diferentes, com direitos diferentes, assim como a União não é a República Federativa do Brasil, ainda que internacionalmente a represente. Isto dá muita paz de espírito ao olhar a política vaticana. As decisões no Vaticano muitas vezes estariam no prosaico Direito Administrativo que no Direito Canônico no sentido estritamente sacramental e religioso. 

O Vaticano é um Estado, tem um governo, é de fato uma "pessoa jurídica de direito internacional", independente e soberana. A Santa Sé é a pessoa jurídica que é a liderança terrena e administração central de uma pessoa jurídica única no universo, por ser multi-dimensional metafisicamente no tempo e espaço, a Igreja Católica. Digo "multi-dimensional" porque a Igreja é composta da sua cabeça divina e liderança de fato, Jesus Cristo, é composta pela Igreja triunfante, os santos no céu, pela Igreja penitente, as almas do purgatório, e é composta pela Igreja militante, os homens na terra.

Por outro lado, o Estado do Vaticano não tem relação hierárquica com os fiéis católicos em outros Estado, mas a Santa Sé tem, por ser a liderança da Igreja. Sendo assim, a Santa Sé enceta relações diplomáticas com os outros Estados, comanda as dioceses e via Estado do Vaticano tem assento na ONU e outros órgãos internacionais. Reforço porque os termos Estado do Vaticano e Santa Sé viram metonímia um do outro. Quando dizem "o Vaticano diz que tal doutrina é assim assim assado", na verdade leia-se: "A Igreja católica, pela Santa Sé, diz que é assim assim assado". Tecnicamente, se Santa Sé voltasse a Avignon, como era no século XIV, mesmo que Avignon continuasse pertencente à República Francesa (juridicamente desde a Revolução Avignon não é mais patrimônio de Pedro), a Santa Sé continuaria tal qual (logicamente, neste cenário, o papa estaria sob as leis francesas enquanto em Avignon).
Enfim, vamos à notícia. Não, não somos a igreja do Edir Macedo, mas varrendo a casa os dracmas são encontrados. 

Teve lugar nestas terça e quarta-feira, no Vaticano, a reunião anual da Comissão de Cardeais encarregada de estudar os problemas organizativos e econômicos da Santa Sé. Para além dos 15 cardeais que formam a Comissão, participaram no encontro, presidido pelo Secretário de Estado, cardeal Bertone, os responsáveis das diversas estruturas económico-administrativas da Sede de Roma: a Prefeitura para as Questões Econômicas, o Governatorado do Estado da Cidade do Vaticano e a APSA – Administração do Património da Sede Apostólica. O Presidente do IOR, Ernst von Freyburg, ilustrou os participantes sobre a situação do Instituto para as Obras de Religião.

No final do encontro, foram publicadas informações sobre o balanço financeiro consolidado dos organismos da Santa Sé e do governo do Estado, que revela um saldo positivo global superior a 25 milhões de euros em 2012. Na quarta-feira, deslocou-se ao local da reunião o Papa Francisco, que evocou aos participantes as finalidades e a utilidade do Conselho, exortando a dar continuidade a estes encontros periódicos.

O balanço da Santa Sé, órgão central de governo da Igreja Católica, fechou em 2012 com um lucro cerca de 2 milhões e 200 mil euros, "graças, sobretudo, à boa gestão financeira", refere o comunicado. Entre as despesas mais salientes sobressaem as relativas aos 2.823 funcionários, aos meios de comunicação social e aos novos impostos sobre os bens imóveis do Vaticano, em território italiano.

Quanto ao Estado da Cidade do Vaticano, registou um saldo positivo de 23 milhões de euros em 2012, mais um milhão do que em 2011, não obstante o clima econômico global. Esta administração independente tem – informa o comunicado - 1.936 empregados ligados à gestão estatal.O Instituto para as Obras de Religião (IOR), conhecido como 'Banco do Vaticano', ofereceu ao Papa um montante de 50 milhões de euros "para o sustento do seu ministério apostólico e da caridade".

Os participantes na reunião refletiram sobre os dados do Balanço de 2012, constatando os resultados positivos e encorajando a necessária reforma para reduzir os custos mediante uma obra de simplificação e racionalização dos organismos existentes, com uma programação mais atenta das atividades de todas as administrações.

***

Vejam a diferença, 2 milhões na Santa Sé e 23 milhões no Estado do Vaticano. Sabem por quê? Porque o Estado do Vaticano tem o Museu do Vaticano, que não é Santa Sé. O Museu faz um belo caixa. Não deixa de ser irônico pensar que todo o mecenato papal tão criticado pelos hipócritas protestantes nos vale uma poupancinha so século XXI. Obras de arte também são ativos, ora, ora. Em certo sentido, é uma renda da Capela Sistina, da Galeria Lapidária, da Pinacoteca Pontifícia, dos apartamentos de Júlio II, do Museu Histórico Laterano, da ala de Arte Moderna do Museu do Vaticano (que ninguém presta atenção na visita, ehehehehe), dos papamóveis e carruagens antigas, até do museu de selos do Museu do Vaticano. Ora, ora, se um museu de obras clássicas dá este dinheiro, isso significa que as pessoas pagam para ver arte antiga não? Quanto fatura o Museu D'Orsay para comparar?

Por outro lado, enquanto os hipócritas criticam a Igreja por ter algum caixa, pensem um pouco: Se a Igreja fosse uma empresa, seria uma empresa bem pobre. Dois milhões de euros não é nada hoje em dia. As grandes corporações faturam bilhões e guardam algumas centenas de milhões de lucro. A Igreja, estando em tantos lugares do mundo, só amelha dois milhõs de euros em sua sede, significa que definitivamente não está atrás de dinheiro. Se hipoteticamente tudo fosse doação este lucro, sendo 1,0 bilhões de católicos no mundo, e convertendo este lucro para 6,1 milhões de reais, temos que cada católico doou 0,006 centavos de real por ano. Ou seja, 163 católicos, num ano, doaram 1 único real para a Igreja. Se o limite da pobreza é quem sobreviva com 2 dólares ao dia, ie, 4,5 reais, que num ano dá R$ 1625,50 (pois é, e vocês felizes com o Bolsa Família, seus vendidos!) isso equivaleria a uma doação de 0,00038% da renda. Não é nem dízimo, nem centésimo, é quase um quarto de milésimo. A Igreja não ganha dízimo, ganha um quarto de milésimo. E vem me dizendo que a Igreja é rica e sanguessuga? Vão mentir no Inferno! O Museu do Vaticano é dez vezes mais gerador de caixa que a Santa Sé. 

A propósito, Frei Ângelo se me lê, nesta figura está escrito em latim o que eu estou lendo mesmo?


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3 comentários:

  1. UMA DIFERENÇA FACÍLIMA DE COMPARAR ACERCA DO QUE SE SUPÕE QUE A IGREJA ARRECADA ANUALMENTE E TÊ-LA COMO ARQUIMILIONARIA.
    De poucas décadas para cá, proporcionalmente, varias igrejas protestantes são muito mais ricas que a Igreja católica!
    Compare o patrimônio do empresário da fé Edir Macedo, + de U$ de 1 bilhão, de seu concorrente nos negocios Valdemiro Santiago etc., e noutros países muito maiores levando-se em conta o tempo de fundação.
    Se a Igreja possuísse a avidez por dinheiro como as protestantes em geral talvez fosse arquimilionária, mas como seus objetivos são outros e recursos para ela são de subsistência, não as acompanha, exemplificando a Alemanha: a área protestante é a opulenta e a católica muito mais empobrecida.

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    1. Não concordo em dizer que na Alemanha a área protestante é a opulenta e a católica muito mais empobrecida, a Baviera que é o estado mais católico da Alemanha e da onde venho o nosso Papa Emérito Bento XVI é uma das mais ricas da Alemanha, para mim a riqueza na Alemanha é tão homogenia que não daria para dizer que tal e tal regiões, por conter mais católicos e menos protestantes ou mais protestantes e menos católicos, sejam mais ou menos ricos, para mim na Alemanha a riqueza esta muito bem distribuída.

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  2. Trata-se de João Tetzel, da cidade de Pirner. Foi um místico frade dominicano, pregador da concessão de indulgências, no século XVI e que inspirou Martinho Luterno na composição de suas 95 teses.

    Na imagem, leia-se:

    João Tetzel de Pirner
    Místico, Monge (frade) da Ordem de São Domingos
    Pregador odiado em Frankfurt, sobretudo contra a fornicação.
    A Bula Papal de licença foi no ano de 1537.

    A última linha não está legível...

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