Aquém da Imaginação & Tempo de Contrastes & Biscoitos

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Dora Kramer - O papa Francisco e os jovens ─ os hóspedes ─ saíram-se muito bem. Já o poder público ─ o hospedeiro ─ saiu-se muitíssimo mal da Jornada Mundial da Juventude que, durante uma semana, expôs em detalhes as deficiências que marcam uma grande distância entre a fantasia de querer e a capacidade do país de fazer grandes eventos.

Como ficou demonstrado, "imagina na Copa" não é apenas um bordão travesso ou mera abstração do contra. É produto da confrontação diária de que a má qualidade dos serviços prestados aos brasileiros não corresponde à pretensão de ofertá-los em larga escala a multidões de visitantes.

Engarrafamento, falha de planejamento, falta de transporte, filas imensas nos pontos de ônibus sempre insuficientes, caos nas estações do metrô, nada a que os locais não estejam acostumados.

Da mesma forma estamos familiarizados com a desculpa de que "nessa época do ano choveu além do previsto", apresentada pela prefeitura do Rio ante a impossibilidade de se realizar a vigília de oração e a missa de despedida do papa no lodaçal em que se transformou o campo preparado (?) em Guaratiba, na zona oeste da cidade.

Os moradores dessa e de outras regiões ─ não só do Rio, aqui uma espécie de maquete dos enguiços existentes Brasil afora ─ estão habituados a sofrer os efeitos das chuvas tidas por nossas autoridades como ocorrências imprevisíveis. As pessoas morrem, perdem suas casas, ficam desamparadas e é sempre a mesma coisa: culpa da abundância inesperada de São Pedro.

Os transtornos da Jornada funcionaram como um resumo de repercussão amplificada do grito dos cidadãos que foram às ruas. Também daqueles que, nas pesquisas, registram concordância com as manifestações deflagradas pela saudável ousadia da juventude imune aos efeitos da anestesia de um falso Brasil reinventado na imaginação (para não dizer manipulação) do ex-presidente Luiz Inácio da Silva.

No embalo dessa fabulação, deixou-se de lado o ensinamento do velho dito: "Quem não tem competência não se estabelece". Várias das reclamações que se viram nas placas de junho estavam retratadas nos desacertos da Jornada de julho, em logística e duração incomparável com a Copa do Mundo e a Olimpíada.

O enredo criado por Lula quando dos espetáculos promovidos para celebrar a escolha do Brasil como sede dos dois certames não combina com os fatos. Não resistiu ao primeiro teste da realidade de falta de estrutura, disciplina, seriedade, realismo e responsabilidade para fazer frente ao tamanho do compromisso assumido.

O ensaio na primeira viagem internacional de Francisco cobre de descrédito o País, que saiu da Jornada menor do que entrou. O papa, generosamente bem humorado, pediu desculpas ao prefeito pela "bagunça" que estava fazendo na cidade, quando eram os anfitriões os responsáveis pela série de confusões.

No início, temia-se que a repetição dos protestos e atos de vandalismo tumultuasse o ambiente. No fim, o que tumultuou foi justamente a inépcia do poder público, alvo das manifestações cuja motivação ficou patente. Ao mesmo tempo, comprovou-se a razão pela qual as autoridades não souberam dar aos manifestantes uma resposta à altura.

A despeito da improvisação, a festa que hoje se encerra foi bonita. Pelo conteúdo de espiritualidade que estimula positivamente e cria uma atmosfera de boa vontade, bem entendido. A mesma condescendência, porém, não haverá quando do campeonato de futebol e dos Jogos Olímpicos.

Se o mundo deu agora um mau (e merecido) testemunho a respeito da ineficácia da organização, não é nem de se imaginar, mas de se constatar previamente, a dimensão do vexame que se avizinha no horizonte.

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Reynaldo Rocha - Tempo de contrastes. Dias de redescobertas. Assim vi a passagem de Francisco pelo Brasil.

Nada mais chocante ─ pelo impacto do contraste ─ do que ver Dilma, Evo e Cristina na missa de Copacabana. Nada falaram, o que merece nossos agradecimentos. Foi suficiente a visão da Viúva Eterna, do índio de araque e da surreal presidente que não assumiu ainda. Sem contar a presença de Sérgio Cabral, a salvo de manifestações, preocupado apenas com o helicóptero (e com o Juquinha).

A presidente que temia pela segurança do Papa promoveu reuniões infindáveis com os responsáveis pelos aparatos de segurança. A preocupação com o clima de insatisfação popular visível nas ruas foi estendida à visita de Francisco. Mais uma cortina de fumaça. Previsível como qualquer ação oriunda dos militontos do PT.

O Brasil ─ em especial o Rio de Janeiro ─ mostrou de modo insofismável contra quem é a revolta que explodiu nas ruas.

Não, presidente, não é contra tudo e todos! É contra o que você e seus asseclas representam. Duvida? Dê um passeio pela Avenida Presidente Vargas num carro com os vidros abertos. E reze para não ficar presa num engarrafamento.

A segurança oferecida era desnecessária. Um tal de "povo" sabe cuidar da segurança de quem admira. Sabe distinguir perfeitamente mensageiros de boas-novas de apóstatas que pregam a mentira.

Mais que a religião católica ou a fé de cada um, Francisco representou o retorno e resgate de alguém que fala a verdade. Não oculta nem reescreve uma história. Não encobre erros, não demoniza quem discorda, não diz coisas incompreensíveis.

Isso Dilma jamais entenderá. Na entrevista à Folha de S. Paulo, ela insiste em descrever um país de fantasia, inventa números, quer ser inteligente (e soa somente vulgar).

De novo, senhora copresidente, faça um teste! Tente reunir mil pessoas em Copacabana para ouvir sua mensagem. Qualquer uma. Se entenderem, vão vaiar. Se não entenderem, vão viras as costas.

Ficarão somente os apaniguados, a gritar histericamente que Lula é o Senhor e Dilma a nova Senhora! (Eles berram qualquer coisa. Basta ter emprego, sanduíche de mortadela e tubaína).

Mais uma diferença. As pessoas que participaram dos eventos protagonizados pelo papa Francisco estavam pagando ─ do próprio bolso ─ para lá estarem. Só como exercício matemático: para colocar 3 milhões numa praia qualquer do país, o PT gastaria módicos R$ 210.000.000,00 (a R$ 70,00 por cabeça, o preço de um "manifestante" pró-governo). É caro, ainda mais sem o apoio da dupla José Dirceu e Marcos Valério.

Já vimos a redescoberta da força das ruas. Agora constatamos, entusiasmados, que podemos ouvir mensagens inteligentes (e inteligíveis) no Brasil real. Quase esquecemos que era possível.

Não é o caso de concordar ou não com o que Francisco disse nestes dias memoráveis. Trata-se de compreender que, mesmo discordando, não seremos demonizados.

Entre o papa Francisco e Dilma, numa estranha inversão, quem se preocupa mais com o capeta é ela.

Embora o papa tenha opositores, não se ouviu uma só comparação entre a fé que Francisco professa e outra qualquer. Na entrevista de Dilma à Folha, há um elogio (??) a Lula e cinco comparações com Fernando Henrique.

Francisco enxerga o futuro. E agradece o passado, no que ele pode dar de contribuição para hoje. Dilma dirige de olho no retrovisor. E amaldiçoa quem lhe permitiu ser o que é.

É um contraste. Mais um.
Dizem os antigos que o diabo não fala. Só age.

Dilma é ou não especialista no coisa-ruim?

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Calor Brickman - Acredite se quiser: Na recepção do governo fluminense ao papa foram servidos biscoitos, água e café. Custo oficial: R$ 1.300 por pessoa. Nem que os biscoitos fossem feitos por freiras portuguesas e a água viesse de nascentes do Himalaia o custo se explicaria. Talvez seja o café. Já sabiam que o frio vai provocar alta de preços.



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Um comentário:

  1. VIVEMOS, GRAÇAS AOS ELEITORES DO PT, SOB O "PADRÃO PETRALHA DE QUALIDADE"!
    Tudo feito pela metade, superfaturado, recheado de desvios de verbas, em cima da hora, sem planejamento, cuidando apenas de salvar as aparências, e evidente que sempre desanda, daí as culpas do fracasso recaem, como sempre, na Oposição, nas elites exploradoras do povo, nos imperialistas...
    Os desacertos do governo do Rio refletem o geral dos estados brasileiros, mas direcionam para o governo federal: na sua incapacidade gerencial e nos deficitarios serviços básicos necessários para o desenvolvimento do país, sem meritocracia, mas a quem se apegar à ideologia partidária.
    A demagogia do Planalto sempre anuncia mega investimentos e outras fábulas financeiras: são ilusionismos de que se vale o PT para se manter no poder, nada mais.
    Dá para inserir a famosa sentença de Lênin, amada pelos comunistas:
    ACUSE OS ADVERSARIOS DO QUE VOCÊ FAZ,
    E CHAME-OS DO QUE VOCÊ É!

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