A fila dos pecadores

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"Não é meu papel censurar ou impedir manifestações, mas acho que o papa não tem relação direta nenhuma com os pecados dos governantes brasileiros ─ a não ser perdoá-los quando há confissão".

Eduardo Paes, prefeito do Rio, ao implorar por uma trégua nas manifestações cariocas, sem esclarecer se já ocupou seu lugar na fila do confessionário reservada aos políticos dispostos a contar ao Papa Francisco tudo o que fizeram. (Augusto Nunes)

"Ele não é responsável pelos pecados da sociedade brasileira, dos governos brasileiros, das autoridades. O bom, pelo contrário, é que as autoridades brasileiras se confessem com o papa Francisco e deixem de cometer os seus pecados. A presença dele pode ajudar neste sentido".

Eduardo Paes, prefeito do Rio, sem esclarecer se vai contar ao papa que maquiou só o trecho da Varginha por onde Francisco vai passar para que o visitante acredite que não há diferenças notáveis entre uma favela carioca e o Copacabana Palace.

Nota do Frei: Confissão não é nada sem arrependimento, seja contrição, seja atrição, vale lhufas. Eduardo Paes é tão bom catequista quanto prefeito. 

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Augusto, de novo - "Ser prefeito do Rio é a melhor coisa do mundo", repetia Eduardo Paes enquanto lidava apenas com as ondas do Atlântico e multidões dispostas a aplaudir até o pôr-do-sol no Leblon. Começou a desconfiar que o emprego não é lá essas coisas quando foi confrontado com a onda de descontentamento que apressou a redescoberta da rua por multidões indignadas.

"Com a sequência de eventos de grande porte, o Rio vai viver um período de sonho", festejava de meia em meia hora o anfitrião da final da Copa das Confederações, da Jornada Mundial da Juventude, do papa, da final da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. O sonho começou a esfumaçar-se quando se viu obrigado a fugir da vaia no Maracanã. Virou pesadelo com a notícia de que milhares de moradores da Cidade Maravilhosa estão prontos para dizer ao papa, aos berros, o que acham de políticos como Eduardo Paes.

Surtos de medo soltam a língua e estimulam a inventividade, informa o comportamento do prefeito às vésperas da chegada do chefe da Igreja Católica. Primeiro, Eduardo Paes fez de conta que o alvo dos manifestantes era o argentino Francisco: "O papa não tem culpa nos 20 centavos, na eventual corrupção dos políticos, no fato de os deputados trabalharem ou não", recitou. "O Papa é representante de fé e deve nos unir".

"Não é meu papel censurar ou impedir manifestações", ressalvou, "mas acho que o papa não tem relação direta nenhuma com os pecados dos governantes brasileiros ─ a não ser perdoá-los quando há confissão". Foi então que ocorreu a Paes a ideia de aproveitar a visita do Santo Padre para promover a maior conversão coletiva de pecadores irrecuperáveis registrada desde o Dia da Criação: "O bom é que as autoridades brasileiras se confessem com o papa Francisco e deixem de cometer os seus pecados. A presença dele pode ajudar neste sentido".

Se a maluquice nascida na cabeça de Paes vingasse, constata o comentário de 1 minuto para o site de VEJA, Francisco teria de ficar algumas semanas por aqui, enfurnado o tempo todo num confessionário e ouvindo histórias de que até Deus duvida. Terminada a maratona assustadora, voltaria para Roma com a sensação de que visitou não um país, mas um acampamento de bandidos instalado onde até janeiro de 2003 ficava o Brasil.



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