Aceita?

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Humor corporativo - Estava à beira mar. Podia ouvir o barulho das ondas onipresentes se quebrando nas pedras próximas num brrrrrrr contínuo. Eu e meu interlocutor discutíamos grandes questões filosóficas, o sentido da vida, a razão do universo, a finalidade dos esforços humanos.

Quando meu colega de papo se vira para mim e pergunta:

- Aceita mmmmmmmmm mmmmmmmmm ?
Não entendi o que ele quis dizer. Pedi para repetir a pergunta
- Aceita mmmmmmmmm mmmmmmmmm ?
Continuava não entendendo.
- Aceita mmmmmmmmm mmmmmmmmm ?
Achei que deveria responder:
- Se aceito a liberdade humana? Aceito que o homem é livre e senhor dos seus atos, e que é inteiramente responsável pela consequência deles!

Meu interlocutor continuou no mesmo tom, pelo jeito não satisfeito. Tinha que dar outra resposta à pergunta incompreensível.
- Aceita mmmmmmmmm mmmmmmmmm ?
- Aceito o sacrifício salvífico de Cristo e seu ensinamento, aceito a santa fé católica, pela qual todos os homens são salvos e é penhor de liberdade e felicidade humana nesta vida e na próxima!
Ele ainda continuou perguntando:
- Aceita bmmtmmmtmm ou smmmmdmmmnmm ?
- Aceito a democracia e o Estado de Direito, a separação dos poderes, o governo das leis como mantenedoras da paz, a primazia do indivíduo sobre a sociedade!
Ainda não era a resposta desejada, porque continuou sempre igual:
- Aceita bamtmmmtila ou sammmmdmmmnilo ?
- Aceito a sacralidade da vida humana, desde a concepção até a velhice, e que a proteção do homem é o valor máximo que o Estado deve ter!
- Aceita batatatinha ou salgadinho?
- O quê?!!!
- Aceita batatinha ou salgadinho?

Acordei e vi a aeromoça da Azul – com sua indefectível e mui original maquiagem de sombra azul nos olhos – balançando um saquinho de batata na minha frente.
- O senhor aceita batatinha ou salgadinho?

Levou meio segundo para me dar conta de que estava realmente "alto". Sabe quando vc acorda e dá "boot" no sistema operacional com as perguntas "Onde estou mesmo? Que horas são? Quem é esta pessoa do meu lado?" Aconteceu que eu tinha cochilado durante o voo. O barulho de mar era apenas a turbina do avião. E a aeromoça tinha entrado dentro da profunda discussão filosófica do meu sonho com seu oferecimento de snacks. Ela estava vindo banco a banco, e quando chegou no meu vizinho me acordou.

- Quero batatinha… – disse esfregando os olhos e aceitando o pacotinho

E o sentido da vida se acabou numa batatinha com suco de laranja de caixinha. Pelo menos respondi no sonho, não fiquei falando sozinho durante o voo. Bem, eu acho que não falei, afinal o sujeito do meu lado não pediu para trocar de assento.


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