Então você levou um pé no traseiro da namorada... Dr. Galeno resolve:

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Lá vai o Frei Rojão falar de um assunto secular. "Ah, o Frei falando de namoro? Ele que nunca namorou". Será? Vocês não me conhecem quando era jovenzinho lá em São Gonçalo do Brejo das Almas em Minas Gerais, caminho de Diamantina. Mas não namorei não, entrei cedo para o Seminário. Eu vi sim centenas e milhares de namoros que morreram nos mais diversos graus de flertes, namoricos, namoros sérios (com ou sem autorização dos pais), noivados, casamentos, chifres públicos, chifres privados, chifres consentidos, separações, divórcios (lamentavelmente!), algumas anulações, e o melhor de todos os fins, o único fim legítimo de um casamento, a viuvez... (bom, talvez não para quem morre, né?) . Dizer que um padre não entende nada para falar de namoros é só admitir que um criminalista seja um criminoso, ou que um médico oncologista tenha obrigatoriamente câncer.

Sempre que citar amor neste artigo me refiro ao amor mundano, o amor Eros, não ao Filia ou o Ágape, a virtude teologal da caridade. Isto posto, vamos lá.

O Padre Vieira, em um de seus deliciosos sermões, elenca os quatro remédios para o amor de Galeno, o médico romano. Ah, estes romanos eram sábios nas artes médicas. Usavam encanamento de chumbo que envenenavam e enlouqueciam seus cidadãos, mas sabiam curar um coração partido melhor que qualquer psicobobo hoje em dia de revista feminina. Vamos lá

1. O Tempo - Ah, o tempo cura tudo, até um coração que chora. Como sou interiorano, sei que o período mais lancinante do rompimento se cura com um litrão de cachaça. Mas nada como um dia após o outro com noites no meio para regenerar corações. Tem de passar o luto do rompimento. Tem. Não tem escapatória. Há que se andar uns dias com cara de velório e com o traseiro doído (mas nunca com a mão ralada, jovens!). Passa. Passa mesmo...

2. A Distância - Diz o ditado "Santo que não é visto não é venerado". Pois é. Há que se esquecer quem partiu seu coração. Cortar contato mesmo. Senão a dor não passa. Não adianta querer ser amigo do ex / da ex. Gasolina aviva o fogo, a visão do ser amado aviva o amor. Agora com "feicibuqui" dá para acompanhar todos os passos do ser amado, inclusive ver as fotinhos dele "de conchinha" com o novo namorado pelo qual você foi trocado. Não veja. Desconecte. Entregue ao Hades e ao oblívio. Se aquela pessoa fosse boa, estava com você. É auto-engano, mas se liga ao remédio a seguir:

3. A Ingratidão - Esta aqui é boa. Seja chifres ou um novo amor público, fica aquele ranço de "bunda dolorida" em que foi deixado. Por mais safado que possa parecer, este sentimento deve ser cultivado. "Aquela ingrata me deixou por aquele palhaço orelha-seca!". O amor fenesce com a ingratidão. Eros, a atração, e Eris, a repulsa, são iguais em módulo, basta trocar o sinal. Eles se intercambiam. senão não haveriam crimes passionais! No fundo, o amor é um pedestal mentiroso que colocamos o ser amado sobre capas de ouro. Há que se derrubar este ídolo, há que se mostrar que este gigante de ouro tem os pés de barro. Senhores, funciona. Funciona mesmo

4. Um novo amor - Dr. Galeno sabia das coisas. Sabia mesmo. Os três primeiros conselhos estão quase sempre disponíveis num rompimento, já o quarto é definitivamente a morfina dos corações partidos.  Não caia na conversa "Ai, como sinto saudades dos teus beijos, do teu abraço, da tua voz". Tire os pronomes possessivos, o ser humano é luxurioso e sente a concupiscência. É "Como sinto saudades dos beijos, do abraço, da voz!". A fila anda. Rei morto, rei posto. Nada melhor que para esquecer de um que outro. "Não é a mesma coisa". É e não é. Você quer se curar do amor, não quer? Se não quer, vá valorizando o que perdestes por um sofrimento inútil. Para mim, quem quer sofrer a toa e sem mérito que passe vinagre nos olhos, pelo menos é menos deprimente.

O quarto remédio, como a morfina, tem um efeito curioso. Vicia. Ai, meus amigos, você precisa aplicar de novo os quatro remédios para curar o quarto remédio que você aplicou no penúltimo namoro rompido.

- Ah, ela me abandonou, Frei, snif... - diz meu jovem desolado que vem buscar meu consolo

- Arrume outra. "Mulher, patrão e cachaça em qualquer canto se acha", diz o sábio Adoniran Barbosa.

- Mas eu estava com ela por causa da outra que me largou.

- Ehehehehe, funcionou, não funcionou? Você esqueceu a penúltima.

- Sim, mas a de agora me largou. Tenho de aplicar os quatro remédios de Galeno do quarto remédio de Galeno?

- Uai, sim!

- Mas isto é ridiculo, Frei!

- Todo amor é ridículo porém mais ridículo é quem não amou

- Lendo Fábio de Melo, frei?

- Isto é Fernando Pessoa, seu ignorante!

- Deve haver algum outro jeito!

- Bom, filho, se você quiser curar seu amor com celibato, oração, jejum e peniência, pode tentar. Funciona, ô se funciona! Mas vai encarar? Você é homem o bastante para encarar? Você é apaixonado o bastante por Jesus Cristo para encarar?


É, meus jovens de coração partido. Há que se ter muito amor Ágape, ie, a caridade, para curar o Éros ferido desse jeito. É para quem pode, não para quem quer. E não podem porque não querem, porque Aquele que tudo pode faz poder a quem quer poder querer curar o querer que não mais pode querer.

(PS - Quem entender a ultima frase sem reler ganha indulgências parciais, e quem repeti-la sem travar ganha indulgência plenária. Brincadeira, sô!)


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2 comentários:

  1. Eu travei, mas entendi numa lida só. Mas o Frei Anda lendo Fábio de Melo que eu sei (risos)

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  2. É só mesmo compreendendo o AMOR é que se pode dispensar o amor, que na atualidade é ou pode ser tão volátil como o próximo olhar na esquina, desmanchando-se o amor da mesma forma que era concebido com tal, ou na concepção de última geração: eterno enquanto dure.
    E por se reportar ao pe Fabio de Melo: foi a favor das uniões gays "em nome do amor", subtendendo que qualquer diferença entre ele e o PT será obra do acaso.

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