Do Cardeal Bertone e da Igreja universal

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Leitor pergunta: "Frei, afinal, o Cardeal Bertone é mocinho ou vilão? "

É algo pior que vilão, é algo melhor que mocinho, é algo mais complexo que ambos: É um homem, com virtudes e vícios, graça e pecado.

De qualquer forma, para não me acusarem de ser político, acho que Bertone deveria sair. Sua permanência está desgastada e beira já escândalo. Ministros de Estado, e ele o é, tem um patrimônio de credibilidade na Administração. Sofrem julgamento político de opinião. Rui Barbosa era um bom homem, ficou insustentável como ministro. Guido Mantega é incompetente como ministro, sua permanência é um fardo para o governo, mas como o governo é ruim mesmo, semelhante dissolve semelhante.

Portanto, sem julgamento de valores morais, Bertone deveria sair por ordem prática. Afinal, é sair de um cargo do Estado do Vaticano, não é perder o sacramento da Ordem. É algo bem mais prosaico. Em sentido sobrenatural, não há diferença entre ser Secretário de Estado do Vaticano e ser síndico de um condomínio. É pura administração.

Filhos, lembrem-se que o Estado do Vaticano não é a Santa Sé. A Santa Sé é cliente do Estado do Vaticano e tem milênios de antecedência. São duas pessoas jurídicas diferentes, com direitos diferentes, assim como a União não é a República Federativa do Brasil, ainda que internacionalmente a represente. Isto dá muita paz de espírito ao olhar a política vaticana. As decisões no Vaticano muitas vezes estariam no prosaico Direito Administrativo que no Direito Canônico no sentido estritamente sacramental e religioso.

O Vaticano é um Estado, tem um governo, é de fato uma "pessoa jurídica de direito internacional", independente e soberana. A Santa Sé é a pessoa jurídica que é a liderança terrena e administração central de uma pessoa jurídica única no universo, por ser multi-dimensional metafisicamente no tempo e espaço, a Igreja Católica. Digo "multi-dimensional" porque a Igreja é composta da sua cabeça divina e liderança de fato, Jesus Cristo, é composta pela Igreja triunfante, os santos no céu, pela Igreja penitente, as almas do purgatório, e é composta pela Igreja militante, os homens na terra.

Por outro lado, o Estado do Vaticano não tem relação hierárquica com os fiéis católicos em outros Estado, mas a Santa Sé tem, por ser a liderança da Igreja. Sendo assim, a Santa Sé enceta relações diplomáticas com os outros Estados, comanda as dioceses e via Estado do Vaticano tem assento na ONU e outros órgãos internacionais. Reforço porque os termos Estado do Vaticano e Santa Sé viram metonímia um do outro. Quando dizem "o Vaticano diz que tal doutrina é assim assim assado", na verdade leia-se: "A Igreja católica, pela Santa Sé, diz que é assim assim assado". Tecnicamente, se Santa Sé voltasse a Avignon, como era no século XIV, mesmo que Avignon continuasse pertencente à República Francesa (juridicamente desde a Revolução Avignon não é mais patrimônio de Pedro), a Santa Sé continuaria tal qual (logicamente, neste cenário, o papa estaria sob as leis francesas enquanto em Avignon).

Finalmente, a Igreja Católica é composta de outras "pessoas juridicas" locais que são as Dioceses, e nelas as Paróquias (sim, um quezinho leve de Federalismo, ainda que não seja), bem como as Ordens Religiosas, prelazias et al. E as Igrejas católicas de rito próprio unidas ao Sucessor de Pedro, como Melquita, Sírio-Caldaica, Armênia, tão católicas quanto a romana, e em comunhão perfeita com a romana.

Não nos esqueçamos que a Igreja Católica também é misticamente composta por aqueles que estão em comunhão imperfeita, estão em cisma ou heresia, como as Igrejas católicas orientais cismáticas e os protestantes. Mesmo os homens de bem não-cristãos também se associam à Igreja de Cristo. Naturalmente é uma comunhão mística, não hierárquica, e muito dilapidada, porque nao autoriza sacramentos comuns. Extra Ecclesia Nulla Salus. Fica a cargo da misericordia de Deus tapar os olhos a estas comunhões imperfeitas, olhar o copo meio cheio do que há de comum e salvar a todos em sua Igreja Católica.

Então a Igreja é uma ONG, uma Organização Não-Governamental fora dos muros do Vaticano? Este é o sonho de muitos leigos e clérigos "pogreçistas", né? Uma ongona para defender "usdireituzumanu" (que é tudo o que o Partido manda ser), as plantinhas os bichinos e o direito inealienável de uma mãe assassinar o filho que carrega no seu ventre, mas protegendo os bichinhos, sempre, com muito amor e carinho. Ouso dizer que a Igreja é uma OG, aliás, a única "Organização Governamental" verdadeiramente que há no mundo. Sendo Deus o único Senhor da História e Governador do Universo, a Igreja é verdadeiramente uma Organização do Governo Celeste. Os Governos mundanos, seja Brasil, Rússia, China e EUA, se compararmos com a missão da Igreja, não passam de síndicos e prefeituras prosaicas, que só asfaltam ruas e limpam bueiros, e não vão nada além da matéria. Somos cidadãos da Cidade de Deus, não da cidade dos homens. Da cidade dos homens a morte nos livra das obrigações eleitorais e tributárias, das responsavilidades civis e penais. Mas da Cidade de Deus não tem jeito, somos cidadãos dela desde o batismo pelos séculos dos séculos, mesmo no Inferno mantemos nossa naturalidade de filhos de Deus, filhos rebeldes, filhos condenados, filhos que renunciaram a sua herança, mas que não deixamos de sermos espírito imortal convidado a ter sede de Deus. 

Enfim, Igreja, quantas igrejas há na Igreja! Igrejas de muitas tradições na Tradição Apostólica e ritos; de muitas Ordens e prelazias, de muitas Dioceses e Paróquias, composta de Deus, dos homens santos, dos falecidos penitentes e dos homens vivos; composta por clérigos e leigos; composta por homens de bem em comunhão consigo e homens de bem que ainda infelizmente não a  descobriram; composta por diversos órgãos de administração e até mesmo por um diminuto, porém importantíssimo, Estado entre os estados da cidade dos homens. Não é a toa que Santo Inácio de Antioquia, inspirado pelo Espírito Santo, no primeiro século a chamou pelo nome que se notabilizaria: Igreja universal, Igreja católica.


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3 comentários:

  1. Defronto-me até hoje com um problema até mesmo em casa e o rebato à hora: parece-me que os católicos(?) de modo geral associam Igreja, o Corpo de Cristo com igreja, mais no sentido eclesia, reunião, em que sempre apontam o dedo: mas o padre tal cometeu isso, até o cardeal fez aquilo, como o recente O'Neil, sugerindo que, ao ordenar-se, o sacerdote passaria por um tratamento termo-químico ou correlato, após tornando-se "incorruptível, inerrante".
    Ledo engano; como clérigo, as tentações avolumam-se, sabe o diabo o quanto é subvertê-lo e o levar à apostasia: além de ele correr seríssimo risco de perder-se, leva junto a si uma multidão; quantos deixaram a Igreja por causa de maus exemplos; só não olham para si, seriam muito piores; onde convivem igualariam-se a pagãos, a míopes, e a extensão de sua fé é conveniada a bons ou maus exemplos eclesiásticos ou alheios.
    Creio que por isso preocupam-se demais com eventuais erros de membros ordenados e muito pouco para extirpá-los em si e inverter em certos casos, redundando em: "as ovelhas sendo pastoras de certos pastores", como os que adentram na Teologia da Libertação/PT ou já são ministros do alto escalão da DITADURA DO RELATIVISMO, como os pes Fabio de Melo, Boff, Lancellotti, Rossi e idem da vida...
    Aliás, é bom frisar que os acima e similares estão subtendidos na exaustão e renuncia do S Padre Bento XVI - o episcopado alemão via D Zollitsch já pede perdão - inclusive leigos, como os que prestigiaram comunistas, como o PT num país de tradição cristã, ato de rebeldia, um desafio pessoal aos ensinamentos de Deus e da Igreja!

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  2. Esta explicação é para nao se ter duvidas a respeito do (estado do Vatiano) e Santa Sé, pois a mídia não consegue distinguir uma da outra.
    Abraco Frei.
    Cesar.

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  3. Frei,

    Concordo que o problema é mais embaixo e que todos somos temos virtudes e vícios e que tratando-se de gestão, muitas vezes o que resolve é realmente sair (Bertone ou outro secretário de Estado).

    E ao ler esta aula, vejo como a Igreja é riquíssima na sua história. Infelizmente, damos muitas vezes, maior ibope para a parte dos erros nestes 2 mil anos, mas a cada erro, também podemos ver que existem homens de Bem na Igreja e que Deus jamais a abandona.


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