Meditação no ano da fé - II

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Prosseguindo as meditações no ano da Fé, vamos nos debruçar sobre três "casos" de fé narrados pelos Santos Evangelhos:
 
Santa Helena ressuscita um morto
usando a Verdadeira Cruz
Basílica da Santa Cruz - Roma
Cristo ressuscitou Lázaro. E muitos fariseus, sacerdotes e doutores creram nele. Outros conspiraram para matá-lo. Eis ai um caso em que a Razão alimenta a fé. Ressuscitar mortos é apanágio de Deus, concedido a seus queridos. Elias e Eliseu ressuscitaram os mortos no Antigo Testamento. Qualquer judeu conhecedor das escrituras, especialmente os exegetas e teólogos que eram os fariseus, sacerdotes e escribas deveriam - no mínimo - adquirir uma saudável suspeita de que Jesus Cristo fosse, no mínimo, um profeta como Elias e Eliseu.
 

 Ou seja, é uma conclusão racional lógica que sabendo que Deus ressuscita os mortos (baseado no testemunho da Escritura judaica) portanto um homem que ressuscite os mortos só pode ter parte com Deus.
 
Eu me questiono, porém: Para chegar nesta conclusão lógica, racional e silogística é necessário crer no testemunho da Lei e dos profetas, o Antigo Testamento. Será que aqueles judeus que não creram, mesmo tendo Lázaro diante dos olhos, acreditavam realmente que Elias tinha ressuscitado o filho da viúva? Se não creram no livro dos Reis, creriam em Jesus Cristo? O próprio Jesus discutindo com os fariseus chegou a esta conclusão, aqueles homens não criam nem em Abraão nem em Moisés, porque o patriarca e o profeta se alegraram e falaram dele, Jesus Cristo.

Na igreja de NS do Carmo, Mariana-MG
Vejam outro caso, o do centurião, que a tradição chama de São Longuinho (Longinius). Ao ver Jesus crucificado (e provavelmente tendo recebido no rosto algumas gotas de seu sangue derramado, ó honra!) a escuridão e  o terremoto, proclamou que verdadeiramente aquele era o Filho de Deus. Até mesmo um pagão, um soldado, provavelmente seguidor de Marte, Ísis e Mitra, chegou nesta conclusão. Se os elementos da natureza gritavam de dor na morte daquele homem, só poderia mesmo ser alguém especial, ser Deus!

Outro centurião, cujo nome se perdeu, personagem da história do "Servo do Centurião", aquele que dispensa Jesus de ir a sua casa (cujas palavras eternizamos no responsório do rito da comunhão), como acreditou em Jesus? Ouviu falar dos milagres? Viu um milagre? Já era seguidor do judaísmo (tinha construído uma sinagoga) e fez a ponte entre as Escrituras e o que Jesus fazia? Pois este centurião ignorado recebeu o maior elogio do Senhor, que em Israel não havia tamanha fé. Mérito máximo do centurião, que não tendo a base de fé judaica de um judeu de nascensça cria no Messias de Israel. E não só acreditava, mas acreditava de tal forma inclusive na divindade de Jesus que fala dos "servos" que Jesus teria que fariam suas ordens com ele a distância, ou seja, os anjos. Dar ordens aos anjos é próprio de Deus. Elias era um dos grandes profetas, que até ressuscitou os mortos com sua oração, mas Elias recebia ordens dos anjos de Deus, não dava. Da mesma maneira Moisés de tantos milagres recebia a ordem do anjo porta-voz na sarça ardente e na nuvem do acampamento. Mas Jesus Cristo era Deus, assim dizia a grandiosa fé do centurião, este santo desconhecido, e ele poderia enviar seus anjos para curar o servo.
 
Na igreja de NS da Consolação, Roma
Não só Jesus tinha os anjos, como sendo Deus ele não poderia ter contato com a imundície e o pecado. Dai a humilde declaração: "Senhor eu não sou digno que entreis em minha morada...". Jacó considerou sagrado o solo de Betel, onde teve o sonho da escada que unia  a terra ao Céu. Moisés teve de tirar as sandálias para se aproximar da sarça ardente. Quem tocasse no Monte Sinai durante a Epifania da Lei deveria ser apedrejado. Os sacerdotes que queimaram fogo impróprio diante da Arca no Tabernáculo foram fulminados. O homem que tocou na Arca da Aliança que balançava numa carroça morreu. Onde o anjo se colocou para destruir Jerusalém virou o lugar do Templo. O sumo sacerdote deveria usar guisos na roupa, para que o povo e os levitas o ouvissem entrar e sair do santo do templo, assim evitassem  por engano profanar as coisas santas que o sacerdote eventualmente levasse durante o serviço divino. O rei Joatão que queimou incenso no templo (cesaropapismo, a grande tentação dos governos!) foi ferido de lepra como castigo. O imperador da Babilônia, Baltasar, que profanava os vasos sagrados foi destronado. O ministro Heliodoro, que entrou no Templo para saqueá-lo, foi espancado pelo anjo. Há uma pletora de exemplos do Antigo Testamento da devida distância e separação que deveria ser tomada entre o divino e o humano. E aquele centurião, este santo desconhecido, tinha uma tal fé na divindade de Cristo e tal fé nas Escrituras - é uma inferência razoável - que não queria que Cristo entrasse na sua casa, lugar que humildamente considerava indigno por ele ser indigno.
 
Três exemplos de fé em Jesus Cristo que nasceram da Razão e da Fé. Os que creram em Cristo por Lázaro ter ressuscitado, por crerem que o Deus de Israel ressuscitava os mortos e por terem concluído que Jesus só poderia ressuscitar se tivesse parte com Deus. Longinius - o centurião no calvário - que da mesma maneira viu a Natureza convulcionada e cria na divindade, concluindo que aquele criminoso judeu era um homem de natureza divina. E nosso centurião desconhecido, homem que tinha tanta fé que recebeu elogio de Jesus, que por caminhos desconhecidos a nós, tinha uma visão - de fé - límpida e cristalina que Jesus era Deus.


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2 comentários:

  1. Caro Frei, como e bom ler o que escreve, suas palavras sao como fogo que queima e purifica nosso
    compreender...Abraço.
    Cesar.

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