O Reino de Deus somos nós

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2 Comentários
Tenho sido relapso com meus leitores. Eles me pedem conselhos e raramente respondo. Vamos responder. 

Eu tenho um defeito, sou perfeccionista. Se me deixarem entregue a mim mesmo, consulto toda literatura teológica desde São Clemente de Roma até Joseph Ratzinger, o que é suficiente para dar a volta na Terra em livros. Ai eu penso: "Serei pragmático!" e me limito ao Catecismo e o Vaticano II. Mesmo assim é muito texto! Aí entrego os pontos e digo: "Se nesta idade não sei falar de cor o que é certo, Deus tenha pena de mim. Vou escrever o que tenho na cabeça e que o Divino Espírito Santo guie meus dedos"

Um leitor me pergunta sobre uma passagem difícil do evangelho. E é difícil mesmo. Vamos lá:
"Em verdade, vos digo: alguns dos que estão aqui não provarão a morte sem antes terem visto o Filho do Homem vindo com o seu Reino" - São Mateus 16,28.

Complicado, não? Afinal, a Parusia, a segunda vinda de Cristo, ainda não ocorreu e a geração apostólica está toda morta. E ainda nenhum sinal da Parusia... tomara que venha logo. Hoje a tarde seria um bom momento. Será que teremos esta sorte? Ah, como eu desejava! É verdade que este sermão se refere à Parusia, mas chega no versículo 28 e parece que Jesus tira uma outra camada de significado do ensinamento.

O melhor comentador de Cristo é Cristo, porque sua doutrina excede a de todos os santos, já diz a o venerável Kempis na Imitação. Aliás, uma boa doutrina de um santo é apenas um comentário à doutrina de Cristo, porque os santos são os discípulos, Cristo é o Mestre. Entenderemos este trecho de Nosso Senhor a luz de outro ensinamento de Nosso Senhor:

"Os fariseus perguntaram a Jesus sobre o momento em que chegaria o Reino de Deus. Ele respondeu: 'O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: 'Está aqui', ou: 'Está ali', pois o Reino de Deus está no meio de vós'" - São Lucas 17,20s

Além deste trecho, em outras passagens, Cristo comparou o reino de Deus a uma pérola de grande valor que se vendia tudo para conseguir. Não é exatamente a Parusia, não? Cristo comparou seu reino ao fermento que uma mulher jogava na massa, até levedar tudo. A massa é o que já existe, o fermento é o que transforma. Não é exatamente a Parusia, não?

Resumindo:


O Reino de Deus já está entre os homens.
O Reino de Deus é algo que o homem pode adquirir.
O Reino de Deus é um agente transformador.
O Reino de Deus na geração apostólica viria com Poder.

Quem é o Reino de Deus, que já existia na época apostólica, que os homens ingressam, que transforma?
O Reino de Deus é a Igreja católica e apostólica. O Reino de Deus somos nós. Logicamente somos o Reino de Deus MILITANTE no meio do Mundo. Por isto a Igreja, que somos nós, sofre e é perseguida pelos filhos do mundo e por Satanás. Mas Jesus prometeu que seu Reino era indestrutível, que as portas do Inferno não triunfariam.

A Parusia é a IMPLANTAÇÃO DEFINITIVA e o TRIUNFO do Reino de Deus. É quando a natureza e a criação, escravizada pelo pecado, será redimida e transformada.

Uma parábola interessante entre a imagem do Reino de Deus militante, a Igreja, e o Reino de Deus triunfante, a Parusia é a parábola do joio e do trigo. O campo de trigo é do Senhor, vem Satanás e atira o mal no meio, o joio, a semente venenosa (já extinta). Deus não manda cortar, deixa os dois cresceram juntos para no final da colheita separar. Ou seja, no crescimento e vida da Igreja, o mal estaria disputando espaço no meio do mundo. Na Parusia, no Final dos Tempos, o joio será separado do trigo, os maus serão eliminados do meio dos bons e queimados na fornalha.

Portanto, numa catequese a estrutura das parábolas é:


Sermão do Reino entre eles  – As origens apostólicas da Igreja.
Parábola do fermento – A ação da Igreja católica evangelizando o mundo.
Parábola do comerciante de pérolas  - A entrada dos fiéis na Igreja.
Parábola do joio e do trigo – O combate de Satanás e seus asseclas contra a Igreja Católica.
Sermão do final dos tempos – Tanto o v28 é o firme estabelecimento da Igreja (Ressurreição e Pentecostes) como nos versículos anteriores se refere à Parusia.


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2 comentários:

  1. Frei,

    Como tudo que encontramos na Sagrada Escritura, essa passagem possui vários níveis de interpretação. Esta aplicação feita pelo senhor parece-me acertada, mas mais distante.

    De maneira resumida, apresento o seguinte, começando do cumprimento mais imediato. As interpretações abaixo, por sinal, são atestadas por vários Pais da Igreja.

    1) As palavras de Jesus se realizaram logo depois de proferidas. Na sequência imediata da declaração do Senhor encontramos o relato da transfiguração. Sem dúvida, a transfiguração foi um antegozo da visão do "Filho do Homem vindo com o seu Reino".

    2) Os Evangelhos, especialmente João, retratam a crucificação como a glorificação e a entronização de Jesus. A coroa de espinhos, a Via Crucis enquanto procissão régia, a placa de "Rei dos Reis", a Cruz como Trono - tudo isto foi uma manifestação do Filho do Homem vindo no Seu Reino.

    3) Por fim o mais importante para fins de interpretação de Mateus 16,28: o Apocalipse Sinóptico, ou seja, o Sermão do Monte das Oliveiras (Mateus 24, Marcos 13, Lucas 21) possui bastante afinidade com o versículo em questão. Ambos as profecias contém um marco de temporal ("alguns dos que estão aqui não provarão a morte..." e "esta geração não passará") combinado com uma promessa da Parusia de Cristo. E o Apocalipse Sinóptico é notadamente uma profecia da destruição de Jerusalém em 70 AD, que ocorreu dentro da mesma geração que ouviu as palavras "esta geração não passará até que todas estas coisas aconteçam". Tal destruição foi de fato uma "vinda" de Jesus em Seu poder régio para executar juízo contra a nação impenitente.

    Faz-se importante notar que o discurso das Oliveiras é com frequência relacionado à futura vinda de Cristo, mas sua aplicação primária foi no primeiro século. Aplicá-lo à vindoura Parusia é uma derivação, uma segunda camada de interpretação.

    Assim, de fato, pessoas no tempo de Jesus viram-no "voltar" para destruir o antigo templo, usando os exércitos romanos (não literalisticamente, mas à maneira de Yahweh no Antigo Testamento, que se manifestava pelo seu Poder, amiúde usando forças humanas).

    Saudação,
    Victor


    "Mas Jesus se calava e nada respondia. O sumo sacerdote tornou a perguntar-lhe: És tu o Cristo, o Filho de Deus bendito? Jesus respondeu: Eu o sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder de Deus, vindo sobre as nuvens do céu." - Marcos 14,61-62

    "Os dez chifres que viste, assim como a Fera, odiarão a Prostituta. Hão de despojá-la e desnudá-la. Hão de comer-lhe as carnes e a queimarão ao fogo. Porque Deus lhes incutiu o desejo de executarem os seus desígnios, de concordarem em ceder sua soberania à Fera, até que se cumpram as palavras de Deus." - Apocalipse 17,16-17

    "Quando virdes que Jerusalém foi sitiada por exércitos, então sabereis que está próxima a sua ruína. Os que então se acharem na Judéia fujam para os montes; os que estiverem dentro da cidade retirem-se; os que estiverem nos campos não entrem na cidade. Porque estes serão dias de castigo, para que se cumpra tudo o que está escrito." - Lucas 21,20-22


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  2. Frei Rojao (Nem vou logar, meu estilo eh minha assinatura!)11 de setembro de 2012 16:54

    Nenhuma exegese que não seja herética é exaustiva e não permite outras. Se fosse assim, não comentáriamos mais os salmos porque Agostinho já o fez. Ou o Exodo porque Gregorio de Nissa já o fez.

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