Tolerância: Os beneficiários somos nós

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Faz algum tempo que não respondo cartinhas... mas vocês nem me escrevem mais!
"A paz de Cristo Frei: Sou católico e me deparei com uma situação inusitada: comecei a fazer aula particular com um professor, onde, em sua sala de aula, possui diversos símbolos espíritas, objetos, adesivos, quadros e mensagens relacionadas ao assunto. Confesso que fiquei impressionado e incomodado com o ambiente. O professor entende bem do assunto técnico (que não tem ligação religiosa) e percebo que é bem engajado na religião espírita. Sei que podemos diferenciar a aula e religião, no entanto, gostaria de saber se é recomendado evitar locais deste tipo? Estou pensando em mudar de professor por este motivo."
Não há problema algum e compreendo que você não deveria mudar por isto. Ele está na casa dele, pode expressar suas crenças. Aliás, até em público ele pode expressar suas crenças, é um direito constitucional.

Quanto à validade daquelas crenças, paciência, nossa fé católica diz que o espiritismo simplesmente ensina coisas que não existem. Não existe reencarnação. Sinto muito. Não é assim que Jesus Cristo ensinou, não é assim que os apóstolos transmitiram. Allan Kardec bem que tentou unir os dois, mas não é o ensinamento cristão, por mais que digam. Alguns espíritas, até compreendendo melhor isto (pelo menos são honestos intelectualmente), acusam Kardec de ter corrompido o espiritismo nas origens tentando casá-lo com o cristianismo. Neste ponto subscrevo: Cristianismo e Espiritismo são incompatíveis. As pessoas, porém, são livres para acreditar no que quiserem, seja no cristianismo puro e correto, ensinado pela Igreja católica e apostólica, ou no espiritismo ou na tentativa de fazer amálgama dos dois, por mais paradoxos de novíssimos que haja. Se ele perguntar eventualmente a opinião, emita. Se não perguntar, seja obsequioso em seu silêncio. E se ele puser a opinião dele, ouça e demonstre que você não está a vontade neste assunto, que não partilha daquelas crenças mas as respeita. Respeitar não é concordar.

É como macumba na rua, pisar (por engano) em macumba é problema? Nenhum, porque aquele ritual fetichista é inócuo no sentido sobrenatural - afinal, é artigo de nossa fé que as divindidades politeístas não existem. Já dizia o salmo, "são os deuses pagãos ouro e prata, todos eles são obras humanas". Ah, mas os deuses pagãos não são demônios? Prestar culto a um deus pagão, mormente após ter conhecido a fé cristã, certamente agrada aos demônios, mas não são demônios no sentido literal, mas demônios no sentido que seu culto é um querer dos demônios. Sei que demônios também são espíritos. E quem quiser envocar um espírito, pode ser que acabe invocando um espírito que não seja bem intencionado. Eu, hein, tô fora! Os demônios já vem nos aporrinhar sem pedir, imagine pedindo...

Aproveitando e discorrendo por um assunto paralelo, quanto a chutar macumba ("chuta que é macumba!" diz o ditado), eu não recomendo, para não dar azo a vilipêndio de símbolo religioso. Por outro lado, a rua é pública e objetos de qualquer culto (ou quaisquer objetos, mormente alimentos que se torna um problema de saúde pública!) não deveriam ser largados nela. Qualquer um, em sua propriedade, pode fazer seu culto e ter seus objetos ou oferendas sagradas. Nossas hóstias consagradas ficam muito muito bem guardadinhas nas nossas igrejas, que são propriedades privadas (ainda que abertas em alguns horários ao público). Largar algo na rua é, por outro lado, abrir mão da propriedade, não reclame se for vilipendiado. Se uma imagem benta de um santo católico for largada na rua, ela rolar e cair de cara na sarjeta, vier o gari e jogar no lixo, não posso reclamar. Errado foi quem largou. Ou melhor, se a foto da minha santa mãezinha (canonizada em meu coração) for largada na rua... a mesma coisa...

Quanto a mudar de professor... convenhamos, o problema não é a crença do professor, mas o ambiente que te deixa incomodado. Por outro lado o incomodo é uma sensação subjetiva. Ou seja, o problema é seu de se sentir incomodado. A aula é particular. Compreendo que o símbolo está na propriedade dele. É direito dele tê-los. Não troque de professor por isto não. Fique estritamente focado no conteúdo da aula. Troque de professor sim se ele for um mal professor, se for um molestador intelectual proselitista fora do escopo educacional. Além do mais, se alguém vier a saber que você trocou por isto pode dar rebosteio até por alegar preconceito religioso. O assunto é pegajoso, porque, por outro lado, se um professor de aula particular me desse aulas num estúdio de ensaio de bandas de rock, pediria para mudar porque o ambiente não favoreceria as aulas. Mas não se pode dizer que manifestações religiosas passivas incomodem uma aula como som alto.

Por que divaguei na resposta? Para ser catequético. Dentro da perseguição ao cristianismo, querem tirar símbolos religiosos católicos dos ambientes públicos, alegando uma caricatura de Estado laico, porque Estado laico não é isto. Alegam incômodo. É bobagem. Manifestar incômodo com um símbolo religioso alheio é intolerância. Sim, você tolera as manifestações das outras religiões (quando dentro da lei constitucional, ie, é ilegal e inaceitável uma religião que faz sacrifícios humanos) como tão legais e válidas quanto a sua (isto não significa acreditar nelas ou referendar suas crenças!). Não quero que tirem os crucifixos, nem mudem os nomes das ruas que são de Nossa Senhora (como o horror ocorrido em Belo Horizonte). Da mesma forma devo tolerar e deixar as praças e ruas chamadas de Martinho Lutero, ainda que repreenda veementemente o caminho que seguiu tal homem. 

Nem tampouco o seu incômodo é valor universal, que é o que os lobbies disfarçados de minoria distorçam. O que te incomoda é problema e azar seu. Se o verde me incomodasse, poderia eu proibir o vizinho de pintar sua casa de verde? Eu poderia ME PROIBIR de pintar A MINHA casa de verde. E nec plus ultra. Se um lobby pró-azul-cerúleo vier dizendo que se incomoda com minha batina preta, vou dizer que estou cantando e andando para eles. Se vier dizendo que sou preconceituoso por usar batina preta com os defensores e amantes do azul, vou processá-los por calúnia por me acusarem falsamente de um crime. A mesma coisa se o lobby pró-amarelo querer pintar minha imagem de Nossa Senhora de Lourdes de amarelo, porque o manto azul dela os incomodaria. Ou que me acusasse de preconceito por não haver estola em cor litúrgica amarela. Citei exemplos bobinhos de cor, mas vocês entendem que estou falando de coisas mais graves que vemos hoje em dia.

In summa, é isto. O lá homem tem seus símbolos de crença, é direito dele. Ele tem provavelmente seu poster do médium Chico Xavier, eu tenho meu missionário São Francisco Xavier, insígne jesuíta, servo de Cristo. Não ousem tirar o meu da minha casa e deixe o homem ter o dele na dele. E se a câmara dos vereadores batizar uma rua de Chico Xavier, tudo bem. E se batizar de São Francisco Xavier, tudo bem igual. Mas eu vou quebrar feio o pau se alguém disser que ter logradouros públicos chamados de Chico Xavier ou São Francisco incomoda. Cabe o adágio popular, os incomodados que se mudem.

Fique estrito em seu julgamento na análise da aula. Todo mal vem disfarçado de bem. Não deixe que esta tentação da intolerância venha disfarçada de nobres escrúpulos religiosos. Hoje em dia a fé católica é vítima da intolerância dos falsamente tolerantes. A tolerância é necessária para nos proteger, que somos caçados e cassados em nossos direitos por um movimento intolerante neo-ateu e falsamente laicista, liderado por débeis como Dawkins, Hitchens, Harris et caterva de falsos cientistas, que são todos esparros da esquerdália. Digo sempre "falsamente laicista", porque não é o correto conceito de laico que pregam (afinal, laico vem de leigo! E leigo são os batizados que não são clérigos, que é a quase totalidade!). E são falsos cientistas porque não é a ciência que pregam, não é a verdade, mas a obscuridade, a intolerância, a perseguição aos religiosos. E sempre secundados por evangélicos zelosos que são idiotas úteis nas suas mãos, em sua perversa e culpável iconoclastia contra os símbolos religiosos católicos. No final, tanto ateus intolerantes quanto evangélicos iconoclastas estão fazendo as obras da esquerda politicamente, e do Pai da Mentira sobrenaturalmente.

Tolerância, os beneficiários somos nós. Tolere. E não abra mão de ser tolerado. Expressar as suas crenças não é um direito concedido, foi um direito conquistado muito duramente. E não deixe ninguém cassá-lo.



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Um comentário:

  1. Prezado frei Rojão, a um certo tempo te enviei um e-mail mas até hoje não fui respondido, e faz quase um mês rsrsrsrs... leia-o, por favor. Grato. Bruno Miranda.

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