Sem noção na Sexta da Paixão

/
3 Comentários
Imaginem um velório. Vamos passar por alto nas virtudes e causas da morte do defunto. A família está lá triste amargando a dor da perda, a tristeza da separação, contemplando a face lívida que em breve não verão mais, tocando pela última vez as mãos frias que em breve não mais existirão, nas palavras do salmista: "Logo seu corpo e seu semblante se desfazem, e entre os mortos fixará sua morada". Veio o padre dar as bençãos ao que partiu, e as pessoas oram por ele para interceder pela misericórdia de Deus caso o defunto precise - e quem não precisa? Muitos no velório talvez nem tenham muito amor pelo morto, mas vendo sua finitude contemplam a própria, e que mais uns anos ou décadas estarão eles nos pilares deitados imóveis no caixão. Outros consolam os que ficaram, lembram os grandes feitos do morto, suas qualidades, os episódios engraçados por que passaram, os desafios que o morto enfrentou em vida, e lastimam como mais uma vez o cemitério engole a quem o mundo sentirá falta.
Ou seja, um velório.

Ai de repente chega um grupo jovem animado e tocando músicas felizes, exigindo que os participantes do velório dancem, batam palmas, "tirem o pé do chão", com guitarras e baterias. Argumentam que todos devem celebrar porque a morto se libertou das algemas da existência mortal, que contempla a face de Deus, que está na bem-aventurança, que venceu o desafio da existência, que não mais sofre com sua doença,que cumpriu a sina, que está na paz, que a família está livre de ver seu ente querido sofrendo.

Tudo isto é verdade, mas estes mentecaptos deveriam ser tirados a botinadas do velório. A mensagem não é incorreta, porém a forma é de uma inadequação e insensibilidade grotesca.

Assim acontece nas nossas igrejas na semana santa, especialmente ANTES do domingo de Páscoa.
Os grupos de adolescentes (pelo menos mentais) que tomaram conta dos grupos de música não tem noção. Domingo de ramos, quinta-feira santa, sexta-feira santa não tem clima de alegria neopentecostal. Eles NÂO SABEM cantar coisas diferentes. Eles NÂO QUEREM aprender a ter noção. Eles NÂO TEM estética nem sensibilidade para entrar no clima da liturgia. É verdade que a Páscoa é a vitória derradeira de Cristo sobre o mal. Porém é uma alegria que explode no domingo. A própria liturgia ensina isto nos usos do Glória e do Aleluia na quaresma no missal.

Este é o problema em terem feito o missal de "coadjuvate" do repertório de músicas nas missas. As músicas são escolhidas de maneira "a la carte" e cantadas da maneira jubilosa de sempre. Eles não sabem de outra maneira. Eles não se apronfundam para entender o sentido daquilo. E a sexta-feira santa parece uma festa. Uma vez até ouvi um mentecapto se esgoelando um refrão que dizia VITÓOOOOOORIA na sexta. Vitória? Devia ser a canção de Caifás e Herodes então.

Estar na missa é estar no calvário. A liturgia da sexta-feira santa É no calvário, literalmente. Imagine a cena, aquele banquete de dor que nauseva até os soldados, a virgem arrasada aos pés da cruz, João a sustentando, Dimas cobrando misericórdia de Gemas, os sacerdotes zombando, o céu escuro, o sangue pelo chão, o Senhor destruído pelos chicotes, nu e sangrando impotente, até as pedras estavam com dó (tanto que se romperam na sua morte). Ai alguém vem e diz para comemorar e celebrar com bandeiros e cítaras que aquilo era uma Vitória?! Só se for dos sumo-sacerdotes que pediram a cabeça de Cristo! Nem mesmo Satanás não sei se estava feliz. Estava feliz por ver o Senhor humilhado, ao mesmo tempo triste porque aquele prazer fútil e sádico era um dos poucos que lhe restava, porque aquela morte quitava a dívida da humanidade contraída com a desobediência no Éden e aquelas que se seguiriam pelos séculos dos séculos. A humanidade era punida com justiça porque pecara. Veio o justo e assumiu sem culpa e sem pecado a culpa pelos homens: como verdadeiro homem assumiu as culpas dos homens, como verdadeiro Deus a grandeza de sua morte satisfez a dignidade ofendida de Deus. O contrato do pecado foi quitado, e dali em diante quem quisesse quitar com o pecado bastava invocar e aplicar a si os méritos daquela crucificação (o princípio do sacramento da Reconciliação). Mas lembrem-se que como verdadeiro homem morreu Cristo, faltava ainda a última palavra do verdadeiro Deus: ressuscitar-se ao terceiro dia, quando a decomposição do cadáver começaria notadamente (divergi ligeiramente do tema para explicar melhor a ação das duas naturezas de Cristo na Páscoa).

O pecado é triste, o pecado é doloroso, morrer é horrível, quitar a dívida do pecado não seria feita sem dor, mesmo planejando a ressurreição. Cristo não foi para a Paixão exultante como um herói vitorioso, sofreu antes dela em antecipação, e como verdadeiro homem com vontades humanas quis que este cálice passasse. Se nem Cristo, a despeito de saber que seria vitorioso, estava alegre,  então por que estes mentecaptos insistem com estas músicas alegres? Guardem elas para o Domingo de Páscoa pelo menos!
Mesmo o domingo de Páscoa, o primeiro, não foi alegre. Os nossos são alegres porque entendemos tudo que aconteceu. Mas se forem aos evangelhos, verão que os apóstolos estavam muito é assustados, mesmo São Pedro que correu até o túmulo não entrou, e voltou para casa pensativo com o que viu. Eles ainda não entendiam tudo, entendemos hoje porque eles nos passaram o que entenderam.
Senhor Deus, eu creio firmemente que sua Paixão e morte redentora. Lamento firmemente meus pecados, lamento mais ainda meu apego a eles, porque meus pecados se vão com sua misericórdia, porém meu apego a eles os trazem de volta. Quisera, olhando para tuas chagas, nunca mais pecar, porque o pecado é o único mal.


Você também pode gostar

3 comentários:

  1. Perfeito Frei.

    Na verdade, grande parte da Igreja está completamente 'sem noção' do que é Liturgia, de como oficiá-la e de como celebrá-la.

    ResponderExcluir
  2. Ótimo "post".... merece ser reproduzido como uma "palestra" para as chamadas "equipes de canto"...

    ResponderExcluir
  3. Excelente!!! realmente merece ser reproduzido como uma "palestra" para equipes de canto!
    Frei,há muita ternura na vossa fé e essa ternura vem de Deus!!

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.