A conversão de Santo Amúlio II

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Aconteceu que Amúlio e companheiros estavam roubando, estuprando e matando quando atacaram uma igreja cristã. Tudo que era precioso pegaram com eles e destruíram o resto. Quando foi matar o sacerdote, este pegou os rolos dos Santos Evangelhos e ameaçou Amúlio com eles, afirmando que o Altíssimo não deixaria que os livros sagrados fossem profanados pelos invasores sem razão. Amúlio pegou sua espada e cortou a cabeça do padre com um único golpe. 

A divina providência é curiosa em fazer com que de maneira tão grosseira os Santos Evangelhos caíssem nas mãos de Amúlio. Da convivência com os romanos ele pegou alguns hábitos civilizados, como ir aos banheiros. Tomando o rolo (Amúlio era analfabeto de pai e mãe, e tinha o maior desprezo pelos homens fracos que perdiam tempo com rabiscos, não em roubar, estuprar e matar) considerou a consistência e maciez daqueles pergaminhos, e tratou de levá-los consigo sempre que precisasse ir ao banheiro. E assim iam se consumindo as páginas conforme seus movimentos intestinais.

Em outra ocasião, atacaram um comboio de romanos cristãos (provavelmente Amúlio na época estava trabalhando para os persas) e capturaram diversos deles, que venderiam como escravos. Dentre eles um velho muito letrado e santo. Aqui os autores divergem. Uns dizem que entre os cativos estava o bispo de Palmira, em outros um diácono de Antioquia da Síria, outros ainda dizem que era São Tiago enviado por Deus por esta missão. 

A noite, no acampamento dos bárbaros, Amúlio sentiu a natureza chamar.  O evangelho de Mateus e metade do de Marcos já haviam ido, pegou as folhas que restavam e foi por uma moita. Quando passava rente a jaula dos prisioneiros, a luz das tochas que iluminavam os cativos, para serem vigiados, o velho perguntou a Amúlio se entendia as palavras que trazia debaixo do braço, provavelmente tendo reconhecido o texto por amplo conhecimento da Palavra de Deus.

Irritado, Amúlio sacou um faca para cortar a língua do velho. Ia entrar na jaula quando um de seus companheiros o repreendeu, dizendo que o velho era letrado nas ciências gregas e latinas, e que daria um bom escravo professor, sendo mais caro portanto. Se cortasse a língua dele, seu preço cairia drasticamente e não valeria nem a comida que comia. 

Amúlio concordou, e seguiu para a moita. Ainda irritado com o comentário, guardou as folhas usadas, passou pela jaula e repreendeu o velho que se dava tanto valor aqueles rabiscos inúteis, que os lesse. E esfregou as páginas sujas no rosto do santo velho. E foi dormir.

Sendo acordado em seu turno de guarda, notou que o velho não só lia as páginas com muita atenção como tinha as limpado com sua própria roupa, e as beijava com intensa devoção, a despeito do cheiro ordinário. Ficou fortemente impressionado e caiu gravemente doente, ao ponto de ficar sem comer nem beber sete dias até chegarem ao mercado de escravos.

Chegando lá, exigiu que ficaria com o velho, e que pagaria aos companheiros o preço dele. A sós com o santo homem, perguntou afinal que tão especial havia naquelas páginas. O  santo homem louvou a Deus que o tocava dessa maneira e que era feliz por ter passado tantas provações se Deus permitia que salvasse uma alma. O velho explicou a Amúlio a Palavra de Deus e testemunhou Nosso Senhor Jesus Cristo.

Amúlio foi tocado pelo Espírito Santo e imediatamente sentiu suas forças se recuperarem, e pediu de joelhos que o santo homem explicasse a ele não só o Evangelho e tudo sobre o ensinamento de Nosso Senhor, mais as letras para o ler e proclamar

O antigo bárbaro passou meses com o santo homem que não só o ensinou a ser um homem de Deus, mas a ser um homem civilizado. Finalmente, Amúlio, convertido, conhecedor de toda a doutrina e ardentíssimo de amor por Nosso Senhor Jesus Cristo, foi batizado. No dia seguinte o santo homem desapareceu e nunca mais foi visto.

E Santo Amúlio da Sogdiana saiu pelo mundo para pregar. Seus milagres e feitos heróicos podem ser lidos nos Fioretti.



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3 comentários:

  1. Sua bênção, Frei!

    Grandiosa era a época em que o senso do Sagrado era muito maior do que os escrúpulos higiênicos!

    Hoje, desgraçadamente, o senso do Sagrado perde até para o senso do politicamente correto...

    Frei, a Ordem Amuliana tem algum lema em latim? Como é?

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  2. Jorge Eduardo dos Reis Velasco25 de maio de 2010 10:42

    Não consigo parar de pensar nisso Frei Rojão.
    Por favor, continue a escrever sobre o Santo Amúlio.
    Bons tempos, homens a sério e com sangue quente.

    PS: Isso sim é bárbaro.

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  3. ROJAO O NEGOCIO TA SERIO, FUGIU DO CONTROLE: tão vendendo o milheiro do SANTINHO DE SANTO AMULIO..... santo Cristo.

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